Trilhos urbanos ressurgem no Brasil

Estação Nossa Senhora de Lourdes VLT Santos/ São Vicente

Estação Nossa Senhora de Lourdes. Ao fundo o novo túnel do José Menino. VLT Santos/ São Vicente

Bonde da Trilhos Urbanos vão passando os anos
E eu não te perdi, meu trabalho é te traduzir

 Trilhos Urbanos, de Caetano Veloso

Os primeiros bondes chegaram ao Brasil em 1859, inicialmente impulsionados por tração animal (PIRES,2012). Poucos anos depois o Rio de Janeiro recebeu os primeiros bondes movidos à vapor, e no final do século XIX foram introduzidos os bondes elétricos. Durante a primeira metade do século XX, várias cidades brasileiras instalaram sistemas de bondes que se transformaram em seu principal modal de transporte.

A partir dos anos 60 estes sistemas foram gradativamente desativados, substituídos por concorrentes movidos à derivados do petróleo: o ônibus e o automóvel. Em 1954 o Recife desativou o seu sistema. Em 1961 Salvador ficou sem bondes. Em 1967 foi a vez do Rio e no ano seguinte São Paulo. Em 28 de fevereiro de 1971, o bonde de Santos fez sua última viagem. No início dos anos 70 o Brasil havia destruído seu mais importante modal de transporte público. Os bondes desapareceram por completo da paisagem das cidades brasileiras.

Instalação dos Trilhos do Bonde, na Praça Mauá no Rio - Maio de 2015

Instalação dos Trilhos do Bonde, na Praça Mauá no Rio – Maio de 2015

Apesar da falta de prestígio no Brasil, os bondes continuaram a circular por várias cidades pelo mundo, em especial na Europa. Nas últimas décadas este modal de transporte ganhou destaque. A evolução tecnológica do bonde abriu novas perspectivas para sua utilização nas cidades.

Os sistemas mais modernos de bondes (também chamados de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos) conseguem se adaptar com grande flexibilidade à diversos tipos de traçados urbanos. Isto porque ele ocupa menos espaço das vias do que os ônibus (sua faixa de circulação é mais estreita), e seu raio de giro diminuiu para cerca de 20 metros. Os trilhos são encapsulados com um amortecedor de borracha, o que diminui as vibrações e o ruído, minimizando o impacto na vizinhança. O desempenho dos bondes atuais é alto. Eles e aceleram e freiam com muita agilidade, o que os torna mais seguros ao atravessar áreas densamente ocupadas. Os bondes também oferecem alto nível de conforto ao passageiro, pois são climatizados, silenciosos e possuem acessibilidade universal. Além disto permitem uma visão panorâmica da cidade através de suas generosas janelas. Contudo o principal diferencial dos bondes em relação aos demais modais é seu imbatível desempenho energético/ ambiental. Segundo estudos da RATP francesa, os bondes emitem quase 80 vezes menos Co2 do que os automóveis. Isto por conta de seu baixo consumo energético, oito vezes menor do que um ônibus à diesel.

RATP (França) comparativo de emissão de CO2 entre modais de transporte

RATP (França) comparativo de emissão de CO2 entre modais de transporte

Assim, é auspicioso verificar que  os trilhos dedicados aos bondes , voltam a ser instalados  no Brasil. Em 2012 foi inaugurado o VLT do Cariri, com tração à diesel, que conecta as cidades de Crato e Juazeiro do Norte. Maceió possui 32 km de trilhos responsáveis pelo transporte de 11 mil passageiros por dias. Em Campos do Jordão e Pindamonhangaba, o centenário sistema de Bondes da EFCJ foi reformado e já voltou a operar. Em Cuiabá, onde as obras estão paradas e atrasadas, o sistema terá 22km de extensão.

No Rio de Janeiro está em construção o sistema com maior capacidade de transporte do Brasil. Serão 300 mil passageiros por dia, através de 28 km de linha e 32 paradas. O sistema carioca fará a interligação de todos os modais de transporte da metrópole, além de conectá-los aos mais diversos pontos do centro do Rio. Os bondes  permitirão a ligação do sistemas de Barcas, dos Trens suburbanos, do Metrô, da Rodoviária e  do aeroporto Santos Dumont. As ruas por onde passarão os Bondes estão em processo de transformação radical. Eles integram o conjunto de obras da operação Porto Maravilha, cujo perímetro de intervenção envolve os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo, além do próprio porto. As calçadas serão alargadas e receberão novos equipamentos urbanos, como lixeiras enterradas, bancos, novo sistema de iluminação, plantio de árvores, etc… Além disto a infraestrutura de comunicação, água e esgoto também está em reforma.

Mapa do VLT do Rio de Janeiro

Mapa do VLT do Rio de Janeiro

Santos e São Vicente também estão a construir um sistema de VLT. O primeiro trecho foi inaugurado no último dia 6 de junho. Os bondes da baixada santista ocuparão o espaço da antiga linha férrea e esta primeira etapa terá extensão de 15 km. Já está em estudo a extensão do sistema para as cidades de Praia Grande e Guarujá, através de túnel submarino. Cada composição terá sete módulos e capacidade para transportar 400 passageiros. No total serão 70 mil passageiros transportados por dia. Com a implantação do sistema haverá uma redução de 23% da frota de ônibus das duas cidades.

Mpa do VLT da Baixada Santista

Mpa do VLT da Baixada Santista

O ressurgimento dos Bondes como uma alternativa de transporte público é muito importante para o Brasil. Nossas cidades são o reflexo de um urbanismo de cunho rodoviarista, para o qual o espaço público é um mero local de circulação… de carros. O esgotamento deste modelo, visível neste momento, nos obriga a repensar nossas cidades em busca de novas tipologias urbanas. Neste contexto, os Bondes (ou se preferir VLTs) são uma importante ferramenta para o redesenho das metrópoles brasileiras. Sua excelência de desempenho, sua capacidade média de transporte (cerca de 30 mil passageiros/hora no pico),  e seus custos bem inferiores aos de um sistema metroviário, fazem dos Bondes um ótimo sistema para cidades de médio porte, ou mesmo como complemento aos sistemas troncais de transporte das grande metrópoles. Se a implantação dos Bondes vier acompanhada de um redesenho da cidade e de sua infraestrutura, as metrópoles brasileiras poderão garantir mais espaço público, e de melhor qualidade, aos seus cidadãos.

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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