Calçada, bicicleta e Carnaval: a (re)ocupação de São Paulo

2016-02-09 17.00.08

Bloco Tô de Bowie, na Avenida Rio Branco

A Cidade de São Paulo passa por transformações muito interessantes ao longo dos últimos anos. Gradativamente as ruas da Cidade voltam a ser local de sociabilidade. Um marco deste processo foram as manifestações de junho de 2013. O gatilho do movimento foi o aumento da passagem do transporte público para R$ 3,20. As manifestações foram fortemente reprimidas pela PM, o que promoveu uma simpatia para com os manifestantes e sua causa. O movimento cresceu e chegou a ocupar ruas e avenidas por todo o país. Contudo, era possível notar demandas variadas entre os grupos manifestantes. Uma delas, era o direito a ocupação do espaço público, muitas vezes vetado pela PM, pelos carros, etc…  Junho de 2013 escancarou as demandas, até então reprimidas, por uma nova Cidade, mais generosa e humana.

Outra face deste processo pode ser notado no bairro da Consolação. A Rua Augusta, tradicional ponto boêmio da cidade, começou a atrair um público mais jovem, que imprimiu novas cores à noite da rua. Não são apenas os bares, restaurantes e boates a ficar lotados, mas também as calçadas. A Praça Roosevelt, abandonada e desconectada da estrutura urbana do bairro, foi reformada e se transformou em um espaço de grande vitalidade. Este contexto permitiu um forte aumento no número de lançamentos imobiliários no Bairro e na área central da Cidade. É muito provável que o próximo censo aponte uma aumento na população que vive no centro.

Simultaneamente, as bicicletas voltaram a rodar pelas ruas da cidade. No início através de coletivos que lutavam pelo direito de circular sobre uma magrela em segurança. Posteriormente, foram criadas as ciclofaixas de lazer, que ocorriam por toda a cidade mas apenas aos domingos. Iniciativa importante que permitiu aos paulistanos recuperar o hábito de andar de bicicleta nas ruas da Cidade. Por fim, a implementação de uma rede cicloviária que alcança os 379 km de extensão, dos quais 282 km entregues apenas nos últimos 3 anos. A bicicleta é um modal de transporte que permite uma maior intimidade com o espaço urbano.

A abertura, por parte da Prefeitura de São Paulo, de diversas ruas da cidade para o lazer aos domingos, é outro fator importante que permite a construção de uma nova relação entre os paulistanos e sua cidade. Ao menos aos domingos é possível encontrar, e conversar, com seus amigos e vizinhos. Os paulistanos, de forma tímida por enquanto, estão a reaprender a conviver com o espaço público de sua cidade. Muitos se arriscam pela primeira vez a andar de bicicleta, skate ou patins.  Muitos se arriscam, pela primeira vez, a caminhar pela rua.

E neste Carnaval mais um fenômeno ocorreu. Milhares de pessoas foram às ruas de São Paulo brincar. Blocos e festas se espalharam por ruas de todas as partes da Cidade. Um Carnaval paulistano como nunca se viu. Com gente a brincar e dançar pelas ruas de São Paulo. Um Carnaval com diversidade: David Bowie, Funk, Frevo, Samba, Eletrônica e o que mais a criatividade dos paulistanos, e visitantes, permitiu. Um Carnaval sem cordas, abadás ou ingressos, livre como toda a festa popular deve ser. Um Carnaval sincero.

Estes eventos fazem com que o espaço público paulistano recupere o significado para os seus habitantes. A rua não é mero local de circulação de veículos. A rua é o lugar por excelência da urbanidade, do encontro e do diálogo. Ela é portanto o lugar da cidadania. São Paulo se empobreceu enormemente ao destruir parte de sua qualidade urbana em troca de uma cidade de cunho modernista, que via na máquina o espírito de seu tempo. É este modelo de Cidade que os paulistanos estão a superar nos dias de hoje. Há muito por fazer ainda, mas o mais importante é despertar. É o que revelam os batuques paulistanos de Momo.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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