A Igreja de Atlântida, de Eladio Dieste

BlogTrês Capitais - Carnaval 2015 891

A Igreja do Cristo Obrero, em Atlândida, Uruguay. Arq. Eladio Dieste

Hoje em dia não fazemos igrejas realmente belas, pois não sentimos a cidade e tampouco nossa própria comunidade religiosa. Se a sentíssemos a veríamos unida com todos os homens e, então floresceria de novo a arte verdadeira em nossa imaginação. Nos preocupamos demasiadamente pela arte como luxo; quando algumas pessoas falam disto, vejo que para elas a arte é somente um substituto, menos vulgar, dos perfumes caros ou dos cavalos de raça.

Eladio Dieste

Em 1958 Eladio Dieste projeta e constrói uma de suas obras mais marcantes: A Igreja de Atlântida, também conhecida como Igreja do Cristo Obrero. Ela se localiza na cidade de Atlântida uma cidade do litoral do Uruguay a 45 km de Montevideo. Ela foi concebida para atender uma região operária e periférica da cidade.

Dieste era praticante católico, e concebeu a Igreja como um amplo espaço litúrgico, cuja configuração aproximava os fiéis do altar. O Átrio é protegido pela laje do mezanino do coro, sob o qual também estão os confessionários.  O Batistério fica enterrado e possui acesso independente desde o exterior. O altar é circundado por uma parede baixa e curvilínea, que também define os demais espaços: a sacristia e a capela de Nossa Senhora de Lourdes. O Campanário se constitui como uma torre cilíndrica isolada do corpo principal da Igreja.

Toda a estrutura da Igreja adota os princípios construtivos desenvolvido por Dieste: o tijolo armado. Desta feita, contudo, ele explora os limites plásticos de sua invenção. Ela adota conóides de diretriz reta junto ao solo e onduladas na parte superior. As armaduras são de 3mm de bitola. A cobertura é composta por três camadas. A primeira é composta por tijolos de 3cm de espessura, chamados tejuelas. Sobre ela uma nova camada de tijolos furados, recoberta com uma capa de proteção de cimento e areia de 1cm de espessura. Sobre a cobertura é colocada a impermeabilização e um camada de tijolos leves como acabamento. A armadura é de 2kg/m², colocada nas juntas dos tijolos. A cobertura trabalha como uma abóbada de dupla curvatura, cujos empuxos horizontais são absorvidos pelo beiral que acompanha a ondulação das paredes conóides. A torre do campanário também foi construída com tijolos armados. Os degraus da escada caracol são pré-fabricados  e funcionam como mísulas engastadas à parede. No total foram gastos 200kg de aço na armadura da torre.

A luz natural é outro elemento exuberante do conjunto. Através do pleno domínio de seu uso, Dieste logra criar uma atmosfera que inspira a reflexão. A quantidade de luz natural no ambiente é mínima. Na fachada principal, ao nível do coro, uma grande parede diafragma coa a Luz exterior através de aberturas vedadas com pedra ônix. Esta pedra também é utilizada para vedar o nicho que ilumina a capela. As paredes conóides são perfuradas e vedadas com vidros coloridos. O altar é o local mais iluminado de toda a Igreja. O contraste de iluminação é dramático. Luzes, brumas, contra-luzes, a riqueza de efeitos lumínicos é intensa.

A Igreja de Atlântida é uma obra arquitetônica que une, com raro equilíbrio, sofisticação e simplicidade. Segundo Dieste “Os meios e materiais utilizados na construção, querem ser expressivos. São humildes como os fiéis para os quais a igreja é construída, mas foram tratados com um esmero que aspira ser uma homenagem que este humildes merecem”. Aspiração que a realização da Igreja acabou por efetivar.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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