A obra da Arquiteta M. Giselda Visconti

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A partir da esquerda: Maria Giselda Visconti, Fabio Penteado e Vilanova Artigas fonte:PENTEADO, Fabio. Fabio Penteado: ensaios de arquitetura. São Paulo: Empresa das Artes, 1998.

Formada em 1958 na FAUUSP a arquiteta urbanista Maria Giselda Visconti possui destacada carreira profissional. Nesta quarta, 4 de maio, ela foi homenageada pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, onde é professora desde 1993.

Logo depois de formada, ela ingressou no Departamento de Obras Públicas, o DOP, órgão responsável pelo projeto, fiscalização e administração das obras do Governo do Estado de São Paulo. No DOP, um de seus primeiros trabalhos foi a elaboração do Projeto do edifício sede do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo, o INCOR.

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Vista frontal do INCOR. Fonte: VISCONTI, Maria Giselda Cardoso. Avaliação Pós-ocupação – O Caso do Incor I – Acessos, Entradas e Circulações São Paulo: Nutau, 1998.

Feito em conjunto com a Arquiteta Maria Mércia Barboza e, posteriormente, com o Arquiteto Nelson Daruj, a concepção do INCOR apresentou inovações. O edifício se aproveitou da declividade do terreno ao criar três níveis distintos de acesso: O público geral acessava o edifício pela parte mais elevada do terreno; no mesmo ponto, mas transversalmente à de público, ficava a entrada para veículos com pacientes em emergência; mais abaixo estava o ambulatório e na parte inferior do terreno os acessos de serviços e funcionários. Assim, isolavam-se as circulações de pacientes, visitantes e serviços. Internamente buscaram-se alternativas ao padrão convencional de organização espacial, no qual o predomínio dos corredores era a tônica. O programa surgiu a partir de um plano de pesquisa que permitiu compreender as complexas relações entre os diferentes setores do instituto. Cabe destacar o papel central desempenhado pela Dr. Clarice Ferrarini, Diretora de Enfermagem do HC e do Dr. Delmont Bittencourt Professor do Departamento Clínico Cirúrgico da Faculdade de Medicina da USP. O INCOR se transformara em um dos principais centros cardiológicos do mundo. Em dezembro de 1967, seis meses após o implante pioneiro, a equipe do INCOR, chefiada pelo Dr. Euryclides Zerbini, realizou o primeiro transplante de coração do Brasil. Mais do que um mero hospital, o edifício foi projetado para abrigar atividades de pesquisa e tecnologia, como a fabricação de válvulas e de corações e pulmões artificiais.

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Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado. Fonte: PENTEADO, Fabio. Fabio Penteado: ensaios de arquitetura. São Paulo: Empresa das Artes, 1998

Em 1968 Giselda ingressou na Caixa Estadual de Casas para o Povo, o CECAP. Ali realizou outro trabalho importante de sua carreira: o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, em Guarulhos. O Conjunto foi projetado por uma equipe de excepcional qualidade. Além de Giselda, trabalharam na elaboração dos projetos os Arquitetos Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Fabio Penteado, Geraldo Vespaziano Puntoni, Ruy Gama, Arnaldo Martino e Renato Nunes. Projetado para uma população de 55 mil habitantes o conjunto foi concebido a partir do conceito da Freguesia. Segundo Hugo Segawa “A organização dos espaços se fazia em torno da freguesia – termo tradicional do urbanismo português relacionado com uma comunidade com vínculos eclesiásticos, atualizado em seu sentido no Cecap-Cumbica como conjunto de pessoas com interesses comunitários”. Cada Freguesia possuía diversos equipamentos que abrigavam serviços a serem compartilhados por seus moradores.

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Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho. Fonte: PENTEADO, Fabio. Fabio Penteado: ensaios de arquitetura. São Paulo: Empresa das Artes, 1998

Este trabalho marca outro aspecto importante na obra de Giselda Visconti: a sua parceria, fecunda e duradoura, com o Arquiteto Fabio Penteado. Em 1968 juntamente com Teru Tamaki, Eduardo de Almeida, Luiz Vallandro Keating, Tito Lívio Frascino, José Borelli Neto e Hercules Merigo, eles projetaram o Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho (atual Fórum Criminal da Barra Funda). Uma enorme estrutura de concreto, concebida como um hospital horizontal cujas circulações eram amplas, largas e iluminadas naturalmente. Cada uma delas pensada para ser uma rua pública, movimentada, dinâmica. Com Fabio Penteado, ela projetaria ainda, em 1975, o Centro Administrativo Estadual, o CAE. Obra jamais construída e cujo objetivo era a criação de um centro para abrigar toda a administração pública do Estado de São Paulo em parte da área atualmente ocupada pelo Parque do Tietê.

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Centro Administrativo Estadual – CAE. Fonte: PENTEADO, Fabio. Fabio Penteado: ensaios de arquitetura. São Paulo: Empresa das Artes, 1998

Em 1998 Giselda retorna ao conjunto do Hospital das Clínicas desta feita para projetar a reforma de outra unidade: o Instituto de Psiquiatria do HC USP, o IPQ. Em parceria com os Arquitetos José Borelli Neto e Hercules Merigo, ela elabora o projeto de reforma do edifício, originalmente de autoria de Hernani do Val Penteado. Diante das intensas mudanças na Psquiatria o edifício dos anos 50 se tornou obsoleto. Ao invés dos pacientes psiquiátricos serem internados, as terapias mais modernas preconizavam o conceito de hospital-dia, ou seja o paciente é tratado ao longo do dia e retorna à sua casa normalmente. A internação só ocorre em casos graves ou mesmo por conta de outras doenças. Esta revolução na Psiquiatria exigia um novo espaço. Assim, o interior do edifício foi totalmente demolido para dar lugar a espaços mais bem iluminados e ventilados, condizentes com os mais modernos tratamentos disponíveis. A planta em “H” acarretava intransponíveis problemas de circulação, o que levou a criação de um amplo átrio no interior de um dos pátios do prédio. Com isto o saguão de entrada, antes acanhado, foi amplamente ampliado. A cobertura de vidro, voltada para o sul e protegida pelo próprio edifício original, levou luz para o interior do Instituto. Toda a circulação foi adequada às normas de segurança e acessibilidade.

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Instituto de Psiquiatria do HC USP – IPQ. Fonte: http://www.borellimerigo.com.br

Além de suas atividades como projetista, Giselda ocupou cargos importantes na administração pública e privada. Nos anos 70 ela foi nomeada representante do Brasil na União Internacional de Arquitetura – UIA. Em 1979 ela foi convidada por Ruy Ohtake para uma das Diretorias do CONDEPHAAT, onde permaneceu até 1982.

Em 1993, Giselda ingressou na FAAP como professora de Projeto do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Artes Plásticas. Em 1997 ela era nomeada Vice-diretora da Faculdade de Artes Plásticas e, no ano seguinte, Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo, onde permaneceu até o final de 2003. Neste mesmo ano, ela coordenou a equipe da FAAP que obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura e Urbanismo da 5ª BIA. Atualmente é Professora do último ano orientando os Trabalhos Finais de Graduação.

Cronologia:

1958 – Forma-se na FAU USP

1960 – Ingressa no Departamento de Obras Públicas – DOP

1966 – Na França, cursa Techniques Modernes de Construction, da Assossiation pourt l’Organization des Stages en France.

1967-1969 – Instituto do Coração (INCOR) do Complexo Hospitalar das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo;

1968 – Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho, São Paulo

1968 – Ingressa na Caixa Estadual de Casas para o Povo – CECAP

1970-1979 – Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, Cumbica, São Paulo

1975 – Projeto do Centro Administrativo Estadual – CAE, São Paulo

1977 – Representante do Brasil na Comissão de Saúde da União Internacional de Arquitetos – UIA

1979 – Ingressa como Diretora no CONDEPHAAT

1982 – Retorna ao DOP

1993 – Professora de Projeto no Curso de Arquitetura e Urbanismo da FAP FAAP

1997-2001 – Vice-Diretora da Faculdade de Artes Plásticas da FAAP

1998-2003 – Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da FAP FAAP

1998-2001 – Projeto de Arquitetura de renovação do Instituto de Psiquiatria do Complexo Hospitalar das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

2000 – Conclui o mestrado na FAU USP com a dissertação Programação de Projetos Hospitalares

2003 – Coordena a equipe da FAAP que obtém o primeiro lugar no Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura e Urbanismo da 5ª BIA.

Bibliografia:

LEME DE BARROS CORDIDO, Maria Tereza Regina. Arquitetura moderna: a rede de fóruns modulares do estado de São Paulo (1969-1975). Tese de Doutorado apresentada no IAUUSP. São Carlos, 2012.

PENTEADO, Fabio. Fabio Penteado: ensaios de arquitetura. São Paulo: Empresa das Artes, 1998.

SEGAWA, Hugo.Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. São Paulo: Edusp, 2002.

VISCONTI, Maria Giselda Cardoso. Avaliação Pós-ocupação – O Caso do Incor I – Acessos, Entradas e Circulações . São Paulo: Nutau, 1998.

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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3 respostas para A obra da Arquiteta M. Giselda Visconti

  1. Marcos, que linda homenagem! Giseldinha Rocks!!!! Orgulho de ter tido ela como minha coordenadora, professora e banca de TFG!!!

  2. barrigasblogRoberto FIalho disse:

    Parabéns Marcão! Linda homenagem à nossa querida amiga Giselda!

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