Editorial do Estadão sobre mobilidade é constrangedor

Av. São João em 1916, quando Estadão já circulava em São Paulo. Os bondes também, em faixas exclusivas.

Av. São João em 1916, quando o Estadão já circulava em São Paulo. Os bondes também… em faixas exclusivas.
FONTE: A Cidade da Light:1899-1930

Em editorial, o jornal o Estado de São Paulo afirmou que a bandeira da mobilidade urbana e a defesa dos “sem-carro” é demagogia. O gatilho para o texto irado do jornal são os 220 km de faixas exclusivas para ônibus na cidade. O editorial mostra que o maior problema urbanístico de São Paulo é político. O que o Estadão defende são os mesmos argumentos que construíram o caos urbano paulistano. Digo que o problema é político pois o debate sobre a mobilidade urbana está longe de estar concluído. São Paulo precisa definir qual será sua estratégia ao longo das próximas décadas, caso queira superar seus graves problemas urbanos, um deles os congestionamentos. Neste sentido é preciso criticar duramente a proposta urbana embutida no editorial do Estadão, pois ela não é apenas do jornal da marginal Tietê, mas também de boa parte dos paulistanos.

BlogSão joão hoje

Av. São João hoje: o espaço público e a paisagem foram destruídos pelo carro. E o Estadão quer mais.

Primeiro a vinculação das faixas ao aumento das multas de trânsito. É óbvio que toda nova restrição gera aumento das multas. Em especial nos seus primeiros “oito meses”. Conforme os motoristas vão identificando as faixas e vendo que as multas são para valer, o número delas irá diminuir. Foi o que aconteceu em todos os corredores e faixas implantados anteriormente.

Os donos dos 7 milhões de veículos são importantes. Dependerá deles o futuro da cidade. Em São Paulo a fumaça dos carros representa 90% da poluição do ar, causa de uma série de doenças. Caso os donos de carros se utilizem mais do transporte público, nossa cidade será melhor. Esta é a experiência por todo o mundo. E para usar mais transporte público, este precisa ser de melhor qualidade, ele precisa ser mais rápido.

As políticas de boa vontade com o transporte individual, destruíram o espaço público e a paisagem paulistana. É bom lembrar que no início do século XX (o Estadão já circulava na época), existiam faixas exclusivas para bondes em São Paulo, como os da Avenida São João. Eles foram arrancados para dar passagem aos carros. Chega a ser hilário falar das faixas como espaços em grande parte vazios. Ainda bem, pois caso estivessem cheias, elas precisariam ser ampliadas para dar vazão ao fluxo de ônibus.

E aí o Estadão chega ao ponto onde a questão política é mais delicada. É preciso sim, criar dificuldades para os que usam o carro. É indispensável a redução do espaço urbano cedido ao carro em São Paulo. Ou seja, quem tem carro precisa perder parte de seus vastos privilégios urbanísticos, para que ocorra a melhoria do transporte público. Não há mais condições de continuarmos a expandir o sistema viário da cidade. Isto é financeiramente inviável, e politicamente impossível. São muitos dispostos a tirar seus carros das garagens, mas poucos, muito poucos, com disposição para aceitar a desapropriação de seus imóveis para a construção das avenidas que desafogariam o trânsito. Ou então a alternativa seria  a construção de novos Minhocões? E quem pagaria a gorda conta?

Temo que seja esta a ideia de planejamento que permeia o editorial.

Outro clichê usado pelo Estadão é falar sobre o trabalho dos médicos e enfermeiros como justificativa para a manutenção do caos. Novamente o jornal mostra parcialidade, pois poderíamos falar sobre os pacientes de hospitais e postos de saúde. Afinal com transporte público melhor eles chegam mais rápido aos hospitais para serem atendidos, o que poderia até mesmo, salvar vidas.

A grande mudança das faixas não está na sua capacidade de trazer novos usuários para o transporte público, mas na diminuição da atratividade do transporte individual como alternativa de mobilidade.

Mas a cereja do bolo é falar em aumento das vagas de estacionamento em São Paulo. Por conta de uma legislação amplamente favorável ao carro, a capital paulista tem um dos maiores estoques de vagas de estacionamento do mundo. E o velho Estadão ainda pede mais.

É constrangedor verificar que um meio de comunicação com milhares de leitores diários, consegue, em um texto tão curto, juntar ideias tão anacrônicas. De proveitoso apenas a noção de que estas ideias circulam de forma vigorosa pela sociedade brasileira e precisam ser devidamente criticadas por todos aqueles que desejam não só cidades melhores, mas um futuro melhor.

Afinal sustentabilidade e carro não combinam. O uso sábio do automóvel será chave para o futuro da humanidade. Especialmente no momento em que, aparentemente, estamos diante de uma nova era de petróleo e fumaça.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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