Fórum Barcelona 2004: o mais belo deserto jamais construído

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O Centro de Convenções de Barcelona: cenário para publicidade de carros

 O que prevalece na proposta do Fórum de Barcelona é um urbanismo fragmentado, configurado por objetos urbanos isolados sem nenhuma relação entre si e, muito menos, com o entorno. Neles se destaca mais a assinatura do arquiteto do que a relação dos edifícios com a cidade.

Josep Maria Montaner, 2002 (Arquitectura Viva, no. 84)

Em 2002 o crítico catalão Josep Maria Montaner escreveu um ensaio sobre a área do Fórum Barcelona 2004 chamado “Os modelos Barcelona: da acupuntura à prótese”. Trata-se de uma dura crítica à proposta urbana adotada nesta nova área da cidade. Em síntese ele afirmava que o conjunto devia ser visto como um legítimo representante do que ele define como “urbanismo espetáculo”. Este seria caracterizado por propostas normalmente assinadas por arquitetos do “star system”, porém heterogêneas e autônomas, sem conexão com a cidade.

A área do Fórum: Parc Diagonal del Mar - Miralles y Tagliabue; Edifício Telefônica - Enric Massip; Edifício Fórum - Herzog e de Meuron; Centro de Convenções - Josep Lluís Mateo; Zona de Baños - Beth Gali; Pérgola Fotovoltáica e Esplanada - Martínez Lapeña y Torres; Porto desportivo e áreas comerciais _ BCQ Arquitectes; Parque de la Paz - Iñaki Ábalos e Juan Herreros

A área do Fórum: Parc Diagonal del Mar – Miralles y Tagliabue; Edifício Telefônica – Enric Massip; Edifício Fórum – Herzog e de Meuron; Centro de Convenções – Josep Lluís Mateo; Zona de Baños – Beth Gali; Pérgola Fotovoltáica e Esplanada – Martínez Lapeña y Torres; Porto desportivo e áreas comerciais _ BCQ Arquitectes; Parque de la Paz – Iñaki Ábalos e Juan Herreros

” A autonomia da arquitetura e o uso de prestigiosos arquitetos têm, ademais, uma vantagem indireta: a colocação do valor da arquitetura no mercado de valores do mundo imobiliário e, em geral do mundo empresarial. Também isto se poderia qualificar negativamente, argumentando sobre os perigos culturais de uma mercantilização radical que beneficia mutuamente aos arquitetos e investidores, ainda que não à arquitetura, à qual seguimos a exigir princípios morais. Porém dado que neste ultraliberalismo já não é possível invocar a moral, não é demasiado negativo aproveitar os anos que todavia nos restam, até que exploda a revolução, para ensaiar os resultados urbanos de uma convivência entre a especulação e a arte atrevida, midiática, do “star system”, dentro de uma qualidade quase sempre superior à vulgaridade cotidiana”

Oriol Bohigas i Guardiola, 2002 (Arquitectura Viva no. 84)

Outro ensaio a tratar deste tema foi “Cidade e acontecimento: uma nova etapa do urbanismo barcelonês” de Oriol Bohigas, premiado arquiteto urbanista catalão, autor, dentre várias obras de destaque, da Vila e Porto Olímpicos de Barcelona.  Apesar de sua visão da proposta ser muito  semelhante à de Montaner, Bohigas demonstra otimismo com relção ao futuro do Fórum, o qual se transformaria no novo “centro metropolitano”  de Barcelona.

Ao visitar recentemente a área do Fórum de Barcelona, me vieram à mente os textos destes dois arquitetos. O espaço é imenso e sua principal característica é a coexistência de amplíssimos vazios e colossais edifícios. A escala impressiona. Vizinho ao Fórum encontra-se o belíssimo Parque Diagonal del Mar do escritório EMBT. No seu entorno se localizam grandes edifícios habitacionais de variadas tipologias. Ao redor do Fórum estão edifícios de escritórios, área comerciais e, é claro, hotéis.

Ou seja o Fórum é um típico espaço urbano contemporâneo. Nele o foco parece estar no turista, no consumidor, na publicidade. Eis porque o defino simplesmente como urbanismo neoliberal. O conceito de urbanismo espetáculo não é suficiente, pois não abarca o  que é fundamental: para quem se dirige o dito espetáculo.

Além do impacto com a escala do Fórum, outro aspecto é marcante: simplesmente não há pessoas ali. Era julho de 2013, uma época muito especial pois as férias europeias ainda não haviam começado, mas a cidade recebia muitos turistas com o início do verão. Por tudo isto a cidade estava completamente lotada. A parte central da cidade (bairro Gótico) recebia todos os dias, noites e madrugadas milhares de pessoas. Porém o Fórum era um deserto junto à orla do Mediterrâneo. Com exceção de uma meia dúzia de skatistas, o que se via era a sujeira e o lixo que cobriam os milhares de metros quadrados de piso de concreto. O restante dos seres humanos ali encontrados trabalhavam na gravação de uma propaganda de veículos.

Quais os motivos para este fenômeno?  O principal acesso ao Fórum é através da ampliação da avenida Diagonal, a nova Av. Diagonal del Mar.  Para se alcançar a esplanada do Fórum, a Ronda Litoral, principal via expressa da cidade, teve o seu leito rebaixado e sobre ela foi construída uma laje que permite a transposição. Mesmo assim, e apesar dos eixos de alinhamento do tramo original da Diagonal terem sido respeitados, a área do Fórum está completamente desarticulada de seu entorno. Ela fica espremida entre a Ronda Litoral e o Mar Mediterrâneo. Este isolamento poderia ter sido minimizado através de uma densa presença de habitações.  Porém elas não existem na área do Fórum.

Nada mais distante do retrato otimista do “centro metropolitano” descrito por Bohigas do que o espaço do Fórum Barcelona hoje em dia. E neste sentido o ensaio de Montaner ganha ares premonitórios. O espaço radicalmente segregado do Fórum, está repleto de grandes nomes da arquitetura contemporânea. Aparentemente esta não está preocupada em se conectar à cidade. A imagem de um imenso espaço urbano desabitado no qual se grava  uma propaganda de automóveis, está carregada de simbolismo. O sucesso do Fórum está justamente em se transformar em um fenômeno de mídia, muito mais do que urbano. É aí que reside o seu valor. O espaço pode ser inabitado (ou seria inabitável?) desde que garanta sua presença nas diversas mídias disponíveis. Ele cumpre assim, sua função perante os investidores, ele é o público principal deste espetáculo. A crítica de Bohigas é muito precisa, exceto em um ponto: uma área para se transformar em centro de uma metrópole precisa ter algum sentido para os seus cidadãos (esta palavra parece ter sumido dos livros de arquitetura). Ainda que seja um lucrativo e potente produto midiático, a arquitetura proposta no Fórum carece de sentido para a maior parte dos barceloneses. Talvez, esta seja a explicação para este espaço ter se transformado em um gigantesco deserto urbano.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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