A Ponte do Tempo

Por : Rodrigo Serafino da Cruz

O mundo é rápido, o mundo é veloz, fluido como diriam alguns, escorre num fluxo continuo e ininterrupto. E assim a modernidade é marcada. Desta fluidez e mobilidade, somos filhos, filhos nascidos num mundo que não criamos, mas encontramos e perpetuamos.

E nós, crias da passagem e mobilidade, criamos o espaço físico ao nosso redor, espaço do movimento, do instante. Quase como o borrão da janela do carro que desvenda a geografia urbana moderna, ou como uma foto em que se abre por muito tempo o obturador para a vida que acontece diante de sua lente. Os espaços que criamos são assim, borrões de passagem.

Na temporalidade materializada nos espaços modernos, tudo é feito para se passar. Já o parar, ficar são verbos de pouca aceitação das cidades modernas. As cidades, criações dos homens e mulheres modernos riem das frustradas tentativas dos verbos parar e ficar de se estabelecerem. O espaço é um borrão; borrão sem forma, borrão de passagem.

Escrevo tudo isso para contar o que vi hoje. Vi um atestado, um manifesto que timidamente começa a ressurgir de forma irônica. Ironizando aqueles que vieram depois dele, que o negaram e que criaram o mundo por nós herdado, o mundo da modernidade. O que vi tem data, período, história. Tem localização também. Pertence a história, ao passado. Vem do tempo em que o corpo era maltratado, onde a dor tinha de ser tolerada e a liberdade para alguns cerceada. O que vi surgiu no sec. XVIII. O que eu vi é pedra, elemento natural moldado e esculpido por mãos humanas. Não há máquinas, porque estas escarnecem daquilo que vi, elas, máquinas, criam o seu algoz que no futuro torna obsoleto o parar e ficar. A máquina criara o andar, mover e fluir. O que vi são simples bancos, muretas e degraus, tão simples nas formas e material, que diria eu, seriam até odiosas para os ímpetos de 3DMAX, Rinoceros e companhia. Odiosa para os perpetuadores do mundo herdado. Odiosa para as formas moldadas pelas máquinas de telas cristalinas e brilhantes de dias contados e obsolescência já programada.

Estes bancos, muretas e degraus estão espalhados pelas ruas, calçadas e pontes de Ouro Preto. Elas são como arautos de pedra bruta evocando um tempo, momento esquecido, ou como antes referido, se preferir, dois verbos esquecidos, parar e ficar.

A cidade e suas ruas são feitas de um coral que canta em constante coro:

-Pare, olhe, aprecie

-Pare, sente, converse

-Para, sente-se, leia e reflita…

Cada pedra que compõem uma mureta, banco, anteparo e degrau faz parte de um coral com seus vários tons. Ou se preferir uma analogia mais honesta ao lugar, cada uma das pedras é como uma tecla e um tubo do órgão de Arp Schnitgerc (1648-1719), ressoando pela catedral da Sé de Mariana.

E o gatilho para o texto, aquilo que abriu a torrente de letras e pensamentos que  veio calmo e constante, conquistando e inundando a minha mente, foi uma ponte que vi. Uma ponte que liga a necessidade e desejo no espaço construído. A ponte fazia parte da antiga entrada da Vila Rica, pois assim se chamava Ouro Preto. Era uma ponte como qualquer outra, em baixo, água, de um lado terra, do outro também. Ela, a ponte, na mais cartesiana das leituras, ligava o ponto A ao ponto B. Bem seria apenas isso, como aliás, tem sido assim que criamos as nossas Vilas Ricas e Ouro Preto, mundo herdado e futuro perpetuado. De forma cartesiana e simples, tal qual minha explicação, conectamos A em B e B em A. Porém, há que se fazer uma pausa, breve ressalva, por mais batido e conhecido que seja. A despeito de se tentarem criar espaços racionais e cartesianos nas nossas cidades, não há nada de simples e organizado na vida urbana. Pronto, aqui me detenho com a ressalva. Não vou falar de Le Corbusier e seu plano para Paris. Voltemos para Vila Rica, para as pedras e a ponte.

Na ponte que vi, ela não me falava:

-Passe-me, atravessem-me

Ao contrário, ela dizia:

-Pare, olhe, aprecie.

-Pare, sente-se, converse

Ali, bem no meio da ponte, identifiquei seu arauto, a voz do coro do coral. Eram pedras de mureta, eram pedras de um banco, longo banco, bem ali no meio da ponte, se estendendo por todo percurso, assim como a ponte se estendia sob as águas. Pedras que cantam, que riem da liquidez, dos fluxos, da velocidade. Não foram moldadas por máquinas, nem foram feitas neste tempo, mas falam de tempo, de velocidade.

Nelas reflito, penso, sinto. Nossas cidades são feito borrões, locais de trânsito e movimento, feitas para carro passar. Aquela ponte também era feita para passar, mas ela te convida a ficar, a olhar, apreciar. Feita para gente parar e conversar.

E fico pensando, quantas confissões aquela ponte ouviu? Quantos beijos roubados não presenciou? Namoros, amizades que começaram e terminaram, tudo ali, por aqueles que nela passaram e ouviram seu convite e prontamente atenderam a sua gentileza deixando ali seu segredos, namoros e amizades.

Nossas pontes, hoje, são mais delgadas, mais eficientes. Muitos se esforçam em fazer delas símbolos das suas cidades, ícones. E fico a me perguntar mais uma vez, quantos segredos e confissões os ícones da forma e criatividade, os símbolos da cidade possam ter ouvido e presenciado? A que se dedicaram a testemunhar? Houve um só beijo que seja, a ser roubado, algum namoro que possa ter começado?

E seguem assim, muitas vezes sendo chamadas de belas conectando A em B conjugando beleza e eficiência no mesmo lugar, mas seus metais, cabos e concreto não nos chamam a segredos e namoros, apenas nos dizem o coro da modernidade, da cidade:

-Passem, passem…

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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