A Royal Victoria Dock em Londres

Inaugurada em 1855 a Royal Victoria Dock foi a mais importante infraestrutura portuária construída em Londres no século XIX. Suas dimensões permitiam a ancoragem dos enormes navios movidos  à vapor. A partir dos anos 1960 ela começou a vivenciar uma forte decadência, no contexto do processo que varreu toda a estrutura portuária londrina. Em 1980 ela encerrou suas atividades comerciais.

Royal Docklands

No mesmo ano o governo Thatcher criou o Planning and Land Act. Ele reduziu a influência dos conselhos locais de planejamento urbano, e aumentou a participação de investidores privados nas intervenções urbanas por todo o Reino Unido. Uma das primeiras instituições criadas dentro deste contexto foi a London Docklands Development Corporation – LDDC. Ela ficou encarregada de “garantir” a regeneração das áreas portuárias de Londres as chamadas “Docklands”, com cerca de 5.100 acres de extensão. A London Docklands podia comprar ou desapropriar áreas e não precisava respeitar as regras urbanísticas dos conselhos locais. Além disto ela tinha capacidade de projetar e construir infraestrutura urbana. Uma de suas primeiras intervenções foi a construção do Docklands Light Rail, um veículo leve sobre trilhos que conectava a região à City, iniciada em 1983 e inaugurada em 1987.

A área das Royal Docks é composta por três garndes Docas: Royal George, Royal Albert e Royal Victoria. Entre as duas primeiras foi inaugurado em 1987 o London City Airport, cuja construção esteve à cargo da LDDC. Em maio de 1987 a LDDC aprova três consórcios para implementar os projetos nas Royal Docks, um deles ficou responsável pela Royal Albert e outros dois foram responsáveis pela Royal Victoria.

Royal Docklands ampliada

A recessão econômica afeta o ritmo das intervenções no início da década de 90. Os consórcios escolhidos para as Royal Docks quebram e as obras são interrompidas. Em 1995 a LDDC vende 22 acres na margem sul da Royal Victoria Dock, em região denominada West Silvertown, destinados a habitação social. Atualmente leva o nome de Britannia Village e possui mais de 800 unidades habitacionais. Em julho de 1998 a LDDC foi dissolvida.

Contudo as intervenções na Royal Victoria não terminaram e em janeiro de 2001 foi inaugurado o ExCeL, o centro de convenções de Londres, projetado pelo escritório Moxley Architects. Nove anos depois, foi inaugurada uma ampliação projetada por Nicholas Grimshaw. No entorno do ExCeL surgiu uma área comercial com lojas, escritórios e hotéis. Uma das últimas inovações da área foi a construção do teleférico que liga a Royal Victoria à península de Greenwich, na outra margem do Tamisa, projetado pelo escritório Wilkinson Eyre Architect’s. Os futuros investimentos serão destinados à doca vizinha, a Royal Albert. Um grupo de investidores chineses irá inaugurar em 2017 um novo distrito comercial. Serão investidos mais de um bilhão de libras para a construção de 3,2 milhões de metros quadrados de “escritórios, espaços comerciais e de lazer”. O que eu definiria como urbanismo neoliberal.

A Royal Victoria é um dos paradigmas deste padrão urbano: uma área de lazer náutico, em especial o  esqui aquático, escritórios e comércio. Mesmo a habitação existente, localizada na área de West Silvertown, fica subordinada ao cenário de entretenimento. Ela também se transforma em atração turística. Foi criada uma praia artificial que permite às pessoas banhar-se na doca. A Royal Victoria é o retrato do processo contemporâneo que transforma as cidades industriais em cidades de entretenimento e lazer (neoliberais?). Onde o cidadão é substituído pelo turista. Este, o escolhido para desfrutar plenamente da cidade contemporânea. É curioso imaginar os gigantescos vapores atracados 100 anos antes, neste local que agora abriga sofisticados bares, restaurantes e lojas. Aqui é possível observar as mudanças sociais e econômicas que afetaram os países capitalistas centrais. Apesar das inegáveis qualidades paisagísticas e urbanísticas do local, fica difícil não pensar nas bilhões de pessoas excluídas da brincadeira. E não falo apenas da África ou do Brasil, mas principalmente das periferias de Londres, que há dois anos ateavam fogo às ruas da capital britânica.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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