São Paulo: de Lutero à Luz

Assim começa a história paulista. Fé de um lado e praticidade rude dos preadores de índios do outro. Deus aqui e o Ouro ali.

Carlos Lemos   

Em janeiro de 1521 Martinho Lutero foi excomungado pelo Papa Leão X, por propor uma ampla reforma da Igreja Católica Romana. Era o marco de um processo histórico conhecido como Reformas Protestantes, impulsionadas por razões políticas, econômicas, sociais e teológicas. Rapidamente a Igreja de Roma começa a perder influência em várias regiões da Europa, primeiramente na Alemanha de Lutero, depois na França e na Suíça de Calvino, na Inglaterra de Henrique VIII, e também na Holanda de Erasmo de Roterdã. Diante desta crise a Igreja Católica Romana empreende uma série de mudanças denominadas como Contrarreforma ou Reforma Católica. Uma das primeiras medidas tomadas foi a criação, em agosto de 1534, da Companhia de Jesus por Inácio de Loyola. Tratava-se de uma ordem religiosa que, diferentemente das demais, se colocava diretamente sob o comando do Papa. Neste contexto foi convocado em 1547 o Concílio de Trento, que inicialmente foi uma tentativa de reunificar os católicos. Contudo, apesar de seu fracasso reunificador, o legado deixado por Trento em 1567 foi uma nova doutrina católica: definições sobre os sete Sacramentos, o Pecado Original e o Purgatório; a aceitação da tradução latina da Bíblia a Vulgata Latina; criação do Index Librorum Prohibitorum; a instituição de um nova liturgia, a Missa Tridentina. E foram os jesuítas, os “Soldados do Papa”, os responsáveis por implementar esta nova doutrina e por expandir o número de católicos, de modo a estancar a expansão protestante. Este é o quadro que cerca a chegada, em 1549, dos Jesuítas ao Brasil.

Portugal e Espanha sempre tiveram boas relações com Roma. Após as descobertas das novas terras da América a Igreja Romana, especialmente através da Companhia de Jesus, passa a apoiar e participar da colonização do novo continente. A Coroa portuguesa e a Igreja Católica tinham interesses diferentes em relação à colonização do Brasil. Depois de apresentar um certo desinteresse por sua colônia, Portugal passou a imprimir um esforço em busca de riquezas e metais preciosos, que já haviam sido descobertos na América Espanhola, mais especificamente no Peru. Ao mesmo tempo corriam entre os portugueses e europeus, uma série de mitos sobre cidades de ouro perdidas no meio do desconhecido e, paradisíaco1 território, que serviam como um combustível para a exploração do interior da colônia. O Tratado de Tordesilhas buscou, em 1494, equacionar as divergências territoriais entre as duas coroas ibéricas. E justamente no limite sul deste acordo estava a região que ia do litoral de São Vicente até Iguape e Cananeia, e que foi explorada em 1532 por Martim Afonso de Souza. Se acreditava que ao transpor a barreira da Serra do Mar, fosse possível alcançar o Peru e suas riquezas. Lá no alto, a região do Planalto do Piratininga era uma porta de entrada para o Peru2, plena de caminhos que permitiam conectar toda a região até o Rio da Prata, e o Paraguai.

Sua ocupação era estratégica tanto para a Coroa como para os jesuítas. E aqui veremos que as opções de ambas foram distintas em relação à como colonizar esta região. Escalar os 800 metros da subida da Serra do Mar foi, por mais de dois séculos, o grande desafio do colonizador. A Serra era traiçoeira, o que fazia com que muitos trechos só fossem vencidos de joelhos3. No séc. XVI haviam apenas seis carreiros capazes de vencê-la. O caminho principal partia dos cubatões, que eram portos fluviais localizados na região de Piaçaguera, na base da Serra do Mar. Ela era verdadeira barreira que isolava o Planalto da região litorânea, que por sua vez dava acesso à Europa. Era preciso ocupar a sua crista de modo a criar bases sólidas para a exploração do interior, que guardava preciosidades e índios a serem catequizados. Neste sentido a Coroa funda em 1553 a Cidade de Santo André da Borda do Campo, que possuía uma muralha de taipa de pilão4, para a proteção contra ataques indígenas. Já os jesuítas desde sua chegada em 1549, acabam por travar um contato mais intenso com os indígenas do litoral. Além disso vários portugueses já haviam se miscigenado com os índios e eram figuras que facilitavam o contato com os europeus.

O fato é que os jesuítas escolheram um outro sítio para abrigarem suas atividades de catequese no planalto. Uma região que era um entroncamento de caminhos indígenas, localizada em uma acrópole cercada pelos vales de dois rios, e onde ficava a tribo do Cacique Tupiniquim de nome Tibiriçá. É ali que os jesuítas fundaram sua “escola de meninos”5, no dia 25 de janeiro de 15546, dia da conversão de São Paulo, justamente o “apóstolo dos gentios”7. A qualidade do local escolhido por jesuítas e tupiniquins será fundamental para o futuro da cidade. Em 1560 Mem de Sá ordenou que os moradores de Santo André se deslocassem para a região do colégio dos jesuítas, agora transformada em Vila. Dois foram os principais motivos para esta transferência: primeiramente a região do Piratininga possuía uma fartura de fontes de alimento seja pela presença dos rios, seja pela facilidade de adaptação das lavouras europeias ao clima local; a ameaça de algumas tribos indígenas levou à ocupação da acrópole paulistana que se mostrara mais eficaz sob o aspecto defensivo8. Por volta de 1562, após uma série de ataques indígenas, São Paulo estava cercada por uma muralha de taipa de pilão de 8,80 metros de altura9.

A taipa de pilão foi a técnica onipresente nas construções paulistas. Desde sua fundação,contando com a fundamental colaboração do Padre Antonio Brás, este método construtivo se impôs diante das circunstâncias. Havia pouca pedra e cal no entorno do triângulo original de São Paulo. Ao mesmo tempo não se dispunha nem de uma mão de obra qualificada, capaz de lidar com edifícios de maior sofisticação, nem tampouco de recursos financeiros. São Paulo foi, até 1867 com a chegada do trem, uma cidade de taipa de pilão10. Esta técnica consistia na construção de paredes de terra socada entre pranchas de madeira, cuja espessura variava de 80 a 100cm. Em algumas construções mais nobres, a taipa era recoberta com tabatinga, um barro esbranquiçado utilizado como acabamento. Evidentemente devia-se conceber um sistema que evitasse o contato da Taipa com a água. Assim, as fundações eram feitas de pedras, o que afastava a umidade de solo, enquanto que os topos dos muros eram protegidos por coberturas com grandes beiras, que preveniam o contato dos muros com as águas de chuva.

Em 1590 o Governador Geral Dom Francisco de Souza é enviado à cidade em busca de ouro. Uma mina é encontrada na região do Jaraguá. Dom Francisco cuida de construir uma infraestrutura em condições de explorar o veio aurífero descoberto. Uma série de técnicos chega ao Planalto, trazendo consigo novos conhecimentos e uma mão de obra mais qualificada. D. Francisco cria a primeira fundição das Américas. A cidade sofreu seu primeiro grande surto de crescimento, e acabou por romper os limites originais da vila murada. Contudo em apenas uma década a mina de ouro entrou em decadência, o que fez com que os paulistas ficassem diante de um dilema. Visto que cerca de 60% de sua população era composta por europeus, só lhes restavam duas alternativas: ou retornar ao Velho Continente sem as riquezas sonhadas, ou seguir interior adentro em busca de fortuna. A opção da maioria dos paulistas foi avançar rumo ao interior.

No início do séc. XVII a população de São Paulo era de cerca de 190 pessoas, maior do que a de Itanhaém com 50 e do que as de Santos e São Vicente com 80 habitantes cada 11. Isto demonstra a importância estratégica da vila, enquanto entroncamento de caminhos rumo ao interior do continente. São Paulo era considerada uma vila privada, à margem do poder da Coroa e da Igreja. Este fato, aliado ao seu natural isolamento por conta da Serra do Mar, fez com que a vila fosse vista como um território livre, o que ajuda a explicar o aumento de sua população para 1500 pessoas em 164012. A riqueza sonhada estava nas minas de ouro e prata que povoavam o imaginário da sociedade do planalto. Contudo em realidade ela foi encontrada na caça e escravização dos índios. Há documentos do Vice-reino do Peru relatando os maus tratos cometidos pelos paulistas contra os índios do Paraguai. Era esta guerra bárbara que mantinha a economia de São Paulo de pé. Do ponto de vista urbano a vila era semelhante às aldeias rurais portuguesas13, compostas por casas de vastos quintais, que eram verdadeiras chácaras, onde se desenvolvia uma agricultura de subsistência. Não havia ordenamento urbanístico algum e as ruas eram traçadas de acordo com as contingências.

Com a chegada de novas ordens religiosas à cidade, uma norma papal de 1509 14, onde se definia que a distância mínima entre conventos era de 520,35 metros, torna-se uma diretriz para a expansão da mancha urbana. Em 1592 chegam os carmelitas, os únicos a desrespeitarem a norma papal. Na sequência vieram os beneditinos em 1598, que irão ocupar a antiga área da aldeia de Tibiriçá, os franciscanos em 1640, os capuchinos em 1644. Todos estes conventos respeitaram a distância mínima preconizada, o que levou a um aumento da área urbanizada e a criação novas ruas que os ligavam.

Até que, em 1695, os paulistas descobrem ouro na região onde atualmente encontram-se Sabará e Caeté, no Rio das Velhas em Minas Gerais. São Paulo sofre um esvaziamento demográfico, já que a maior parte de seus moradores se dirigiu para Minas. Porém aquilo que poderia representar o auge de São Paulo, acabou por se transformar em um de seus piores momentos ao longo da história. Inicialmente os paulistas dominaram a exploração aurífera, pois conheciam a região e controlavam seus acessos. O ouro saía de Minas, chegava ao Vale do Paraíba e em seguida descia a Serra para ser embarcado rumo a Europa no porto de Paraty, que então fazia parte da Capitania de São Paulo. Ocorre que a Coroa portuguesa tinha outros planos para o ouro mineiro. Em 1704, ela abre o Caminho Novo que ligava Ouro Preto ao Rio de Janeiro, elevada à condição de capital em 1763. O conflito de interesses entre paulistas e portugueses levou-os ao conflito: a Guerra dos Emboabas que se iniciou em 1707 e terminou em 1709 com a derrota e a expulsão dos paulistas da região aurífera. No final de 1709 a Coroa compra a Capitania de São Vicente, que passa a se chamar Capitania de São Paulo de Minas de Ouro. Em 1711, numa tentativa de minimizar os efeitos da trágica derrota paulista, a Coroa eleva São Paulo à condição de cidade. Os paulistas continuaram suas buscas por ouro e encontraram novas minas em Goiás e Mato Grosso. Contudo a Coroa novamente interveio na Capitania de São Paulo, dividindo gradativamente o seu vasto território que abrangia desde o norte do Mato Grosso até o Rio Grande do Sul, passando por Goiás, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais. Assim Portugal retira do território de São Paulo as seguintes áreas: em 1720 Portugal separa Minas Gerais; em 1738 Santa Catarina e Rio Grande do Sul; em 1748 Mato Grosso e Goiás. Neste mesmo ano São Paulo se transforma numa comarca da Capitania do Rio de Janeiro.

Isto trouxe consequências negativas para o desenvolvimento urbano da cidade de São Paulo. Sua fragilidade política e econômica, devido a perda de tributos, não permitiu que novos melhoramentos fossem feitos. Neste período cresce a atividade tropeira na cidade, que trazia, desde o sul do país, animais que seriam utilizados no Rio e em Minas Gerais. Mas o fator que iria alterar este quadro foi a restauração da Capitania de São Paulo em 1765. Com o intuito de impedir a concretização de ameaças castelhanas de ocupar a região ao norte do Prata, Portugal revisa a extinção de São Paulo. Ainda que desidratada da maior parte de seu território anterior, já que apenas o Paraná permaneceu integrado, a restauração trouxe um novo dinamismo à capital da Capitania. A mancha urbana volta a se expandir com a abertura das ruas Florêncio de Abreu em 1784 e Libero Badaró em 1787. É construída uma ponte na Av. São João que cruzava o vale do Anhangabaú criando um novo eixo de crescimento. Mas a grande obra do final do XVIII foi a construção, em esquema de mutirão15, da Calçada do Lorena também conhecida como Caminho do Mar. Inaugurada em 1792 ela criava um acesso rápido e seguro com a cidade de Santos. Estava finalmente terminado o histórico isolamento de São Paulo. O início do séc. XIX é marcado pela urbanização da chácara do Chá do outro lado do Anhangabaú e pela transposição do Rio Tamanduateí. Em 1821 a capitania se transforma em província. Após a independência é criada, por D. Pedro I, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que trouxe para o planalto um novo grupo social composto por intelectuais, fato que mudaria definitivamente o perfil da cidade.

É neste momento que o a cultura cafeeira começa a se desenvolver na província, onde o solo e o clima se mostram perfeitos para o cultivo do fruto. Rapidamente a Província de São Paulo se transforma na maior produtora de café do mundo. Toda uma infraestrutura logística é criada para exportar a produção das fazendas paulistas. O porto de Santos torna-se um dos maiores do mundo. No entanto o transporte terrestre era bastante precário, sendo que a tração animal era o único meio de realizá-lo. Com o intuito de resolver este problema logístico foi criada, em 1867, a São Paulo Railway, a primeira estrada de ferro do Brasil, que ligava Santos à Jundiaí, e aumentava a capacidade de escoamento do café do interior de São Paulo. A ferrovia representou para a cidade uma verdadeira revolução urbana e arquitetônica. O trem que descia a Serra cheio de café, voltava à Estação da Luz quase vazio, o que tornava o frete muito barato. Foi assim que uma nova arquitetura baseada nos cânones europeus do séc XIX chegou a São Paulo que começava a crescer em um ritmo vertiginoso.

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1 HOLANDA, Sergio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivo edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.

2 THEODORO, Janice e RUIZ, Rafael. São Paulo, de Vila a Cidade: a fundação, o poder público e a vida política. In: PORTA, Paulo (org.). História da Cidade de São Paulo: a Cidade Colonial. São Paulo: Paz e Terra, 2004. p. 69-113.

3 LEMOS, Carlos. Breve relato sobre as construções paulistas. In: LEFÈVRE, Renée. São Paulo sua arquitetura: colônia e império. São Paulo: Editora Nacional; Edusp, 1974. p.3-13\ 4 REIS FILHO, Nestor Goulart. São Paulo, Vila, Cidade, Metrópole. São Paulo: Takano Editora Gráfica, 2004. 5 BUENO, Eduardo. Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. 6 Sobre a data de fundação de São Paulo vale lembrar que o Padre Manoel da Nóbrega celebrou uma missa na aldeia de Piratininga, em 25 de agosto de 1553, dia da degolação de São João Batista. 7 KEHL, Luiz Augusto. Simbolismo e doutrina na fundação de São Paulo. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. 8 Ver REIS FILHO. Op. Cit. p.17 9 Ver REIS FILHO. Op. Cit. p.22 10 TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: três cidades em um século. 2ª ed. Aum. São Paulo: Duas Cidades, 1983.

11Ver THEODORO, Janice e RUIZ, Rafael. Op. Cit. 12Ver THEODORO, Janice e RUIZ, Rafael. Op. Cit. 13Ver LEMOS, Carlos. Organização Urbana e arquitetura em São Paulo. In: PORTA, Paulo (org.). História da Cidade de São Paulo: a Cidade Colonial. São Paulo: Paz e Terra, 2004. p. 115-143. 14Ver LEMOS, Carlos. Op. Cit.

15Ver THEODORO, Janice e RUIZ, Rafael. Op. Cit.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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