Ditadura da felicidade e curadoria compartilhada

Observatório da Imprensa

Por Israel do Vale

Reproduzido do Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial “Reflexões sobre o jornalismo cultural”, Belo Horizonte, 2012; intertítulos do OI

Novos tempos exigem novas práticas. E as questões que emergem a cada momento não podem ser enfrentadas com respostas pré-moldadas. Se o jornalismo pode ser tomado como termômetro das demandas da sociedade, ele é também indutor ou inibidor de dinâmicas que reproduzem valores e ampliam (ou restringem) a visão de mundo, com implicações nas estruturas de pensamento e nos padrões de comportamento.

O jornalismo cultural foi duramente impactado pelos meios digitais, sobretudo na última década. E a resistência à contaminação pela nova lógica, alinhada aos interesses negociais, agrava, no âmbito dos grandes conglomerados da mídia, um processo de perda de prestígio e do poder de influência que já não era pequeno.

A nova ordem digital implodiu o modelo unidirecional, broadcasting (de um para muitos, de dentro para fora, de cima para baixo), que mediou a circulação da informação ao longo do século 20. E a ideia do jornalista (não só o de cultura) como um radar do que há de mais relevante (ou, na visão farsesca, um iluminado envolto em ares de superioridade) se esvazia na mesma proporção da circulação dos veículos impressos tradicionais – de tecnologia analógica e, não-raro, mentalidade a carvão.

Se o jornalismo cultural praticado nas últimas décadas renovou-se com lastro em experiências de linguagem, qual nos mostram o jornalismo literário e o jornalismo gonzo, seu sucessor entrega-se progressivamente ao achatamento da inquietação e do potencial crítico e o aproxima da publicidade, como refém dos fluxos de audiência.

Imagem pálida

O jornalismo publicitário prioriza o já conhecido. Caronista pela própria natureza, escora-se, não-raro, na popularidade de artistas-sem-obra e celebridades instantâneas, a reboque de seus 15 mil retuites de fama.

Apartado da “vida real”, só enxerga o fato quando a multidão já o carrega nos ombros. Desavergonhado, esmera-se em constatar (quiçá, decifrar) tardiamente, fenômenos de mercado que não viu nascer ou engatinhar, do alto da nave espacial que o conduz pelo universo, observado da estratosfera.

É um modelo amplamente vigente na chamada grande mídia. Que cresce na medida em que os jornalões (outrora símbolos da defesa da consciência crítica) expandem seu raio de ação para o terreno digital, reempacotando conteúdos em portais de internet, geralmente associados a emissoras de rádio e televisão –onde o mundo pulsa em sintonia com as conveniências do departamento comercial.

Para sobreviver como área autônoma, o jornalismo cultural carece reiventar-se. Pressionado, de um lado, pelos cadernos de ideias (que lhes subtraíram o caráter reflexivo e sufocaram a crítica) e, de outro, pelos guias de fim-de-semana (capazes de cumprir com maior eficiência o papel de catálogo de produtos e serviços), o jornalismo praticado nos cadernos ditos de cultura (ou variedades) vive hoje um não-lugar, como sintoma da crise de identidade que assola os veículos de comunicação.

Num ambiente em que todo cidadão é, potencialmente, um emissor de informação, e em que as mídias sociais filtram temas e influenciam e mobilizam pessoas com incomparável agilidade (na web, via smartphones ou tablets), o que poderia qualificar e distinguir o jornalismo cultural (mas não só) praticado nos veículos tradicionais?

Na contramão dessa hipótese, o jornalismo de autoajuda consagrado pelas revistas semanais parece ter encontrado sua turma. Na falta de rumo ou um caminho mais sólido, os veículos diários nadam a favor da maré e lançam aí a sua tábua de salvação.

Não deixa de ser sábio, como estratégia de sobrevivência no mercado. Sobretudo num contexto de expansão da classe média como o que se vive no Brasil. Haverá sempre, afinal, um certo perfil de leitor passivo (geralmente o mediano, da classe média amedrontada), que prioriza a bula ao quebra-cabeças e prefere pagar para pensarem por ele.

Nesse cenário, a lógica do momento é falar o que as pessoas querem ouvir, e não o que seria importante dizer. Entre a inclinação artística (e jornalística) mais questionadora e o talento para entreter (de preferência, sem fazer pensar), viceja o segundo.

A capacidade de embalar conteúdos culturais em linha reta, da maneira mais simples e direta possível, é sem dúvida um talento específico no meio artístico –goste-se ou não do resultado.

Entre a angústia e o risco do caminho autoral ou o jogo de conveniências do que “funciona”, o estranhamento da originalidade ou a martelação de fórmulas, o mercado sempre optará pelo que for mais digerível em menos tempo.

É esta a escolha que vem sendo feita, progressivamente, pelo jornalismo cultural: uma imagem pálida do mercado. A prioridade, hoje, é falar do que “todo mundo” conhece e/ou gosta – como se isso fosse, de fato, possível. O que reflete uma bolsa de valores facilmente perceptível no ambiente musical, mediada por uma espécie de ditadura da felicidade, no temário, no discurso, na embalagem e no resultado, medido em números.

Projetos autônomos

Se o jornalista da área de cultura abre mão progressivamente do status de filtro privilegiado do que seja relevante (no papel cotidiano de eleger, organizar e hierarquizar temas exigido pela prática profissional) e atua como mero avalista do já consagrado, a audiência, em contraponto, insinua-se com uma persona bastante interessante, individual e coletivamente, mesmo que sem intencionalidade.

A integração de recursos, ferramentas e aplicativos digitais e a articulação entre nichos de afinidades oferecida pelas redes sociais dá forma, sistematicamente, a um novo território da circulação da informação. Uma estrutura expansível, modular e celular, com intersecções múltiplas, capaz de provocar aproximações e desdobrar continuamente cada tema.

Blogs, sites e revistas in(ter)dependentes dedicados a recortes de interesse ganham legitimidade e visibilidade, como pára-raios da informação qualificada em um horizonte de nuvens carregadas. Refletem e retroalimentam um fluxo contínuo e dinâmico de conteúdos “organizados” em espiral.

Na era da transmídia, a circulação de letrinhas, sons e imagens em ambiente multiplataforma oferece a lufada possível de esperança na renovação do jornalismo, inclusive o cultural. Um jornalismo não-jornalístico, majoritariamente sem técnica, mas tão crítico e independente quanto aquele que um dia foi tido como o “quarto poder” –supostamente desatrelado de interesses, como só as nossas ilusões mais profundas seriam capazes de admitir.

O jornalismo cultural das duas últimas décadas habilitou-se como campo de provas para a reforma agrária, no Brasil: um latifúndio improdutivo de ideias áridas, acovardado e óbvio, que recolheu-se à sua crescente irrelevância, em vez de semear novos possíveis. Tornou-se refém da tecnocracia reinante nas redações, de carreiristas e autômatos capazes de recitar manuais de escrita ou inventar “modinhas” semanais, em favor de muito pouco além dos próprios egos.

E não foi por falta de oportunidade de virar a mesa. As expectativas embutidas na implantação da TV digital, como possibilidade de oxigenação da linguagem audiovisual e da criação de uma relação bidirecional entre o espectador e as múltiplas fontes de conteúdos, não se cumpriram.

Sucumbiram aos interesses comerciais mais imediatos –para além do fato de que, nunca será demais repetir, os canais de rádio e televisão são bens da nação e, na qualidade de concessões públicas, deveriam (e devem, por força constitucional!) implicar em contrapartidas sociais.

Teriam margem, portanto, a abrir-se à experimentação –onde sequer os veículos públicos, sem fins lucrativos nem recursos (técnicos e humanos) suficientes, conseguem avançar. E para debruçarem-se sobre a diversidade cultural do país, em lugar do afunilamento e das redundâncias do mercado, empenhado em extrair a última gota da meia-dúzia de eleitos do filão da vez.

Na ausência de propostas ambiciosas, inovadoras e contundentes nascidas no bojo das corporações, os projetos editoriais autônomos multiplicam-se, aqui e acolá, e ganham relevo na internet, como ímãs de (inquiet)ações esparsas. Configuram-se, pouco a pouco, como termômetros de um tempo transitório.

Falsa cordialidade

Inteligência coletiva e jornalismo cidadão são ativos de suma importância na era do chamado capitalismo cognitivo. E se o verbo da vez é compartilhar, o sujeito digital terá mais predicados na rede quanto mais generoso e assertivo puder ser.

Se tiver chance de renovação, o jornalismo cultural da Geração Arroba será digital. E nascerá do ímpeto colaborativo de cada agente, nos infinitos nós da rede. Dessa curadoria coletiva, flutuante, feita da relação pessoal de cada um com o tema e de especialistas diletantes, virá o novo. Sem endereço para correspondências. Como uma via de mão dupla que tira de foco o público-alvo e traz à tona o público-ativo.

Para sepultar de vez a boa intenção e a falsa cordialidade do “fale conosco” na relação com o “consumidor de informação”. E entronizar o “faça conosco”, em favor de um “co-produtor de informação”.

É hora, enfim, de migrar do corporativismo para o cooperativismo. E sem escalas, por favor.

***

[Israel do Vale é jornalista, diretor de conteúdo e novos negócios do portal Conexão Vivo. Entre suas diversas atividades, formatou e orientou a primeira edição do programa Rumos Jornalismo Cultural, do Itaú Cultural. Foi gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil e diretor de programação e produção da Rede Minas]

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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