Os cinco grandes mitos da situação mundial de hoje

O Estado de São Paulo

Jim O’Neill

Primeiro mito. O mundo nunca mais conseguirá atingir o mesmo patamar de crescimento.

Os rendimentos da Apple para o primeiro trimestre do ano, revelados na semana passada, foram um dos dados mais interessantes que vi este ano até o momento. Mais uma vez, a Apple superou as expectativas de todos, e o principal motivo foram vendas impressionantes na China, cuja parcela nas vendas desta líder global chega hoje a 20%.

Esta notícia representa uma amostra de como o mundo está evoluindo. A divulgação desta informação coincidiu com a realização da segunda reunião anual do Growth Market Summit do Goldman Sachs Asset Management (GSAM) em Nova York. Antes do início da conferência, fizemos aos participantes uma série de perguntas, sendo que uma delas era “acha que o mundo pode crescer mais nesta década do que na anterior?”. Numa demonstração de otimismo, 50% responderam que sim. Disse à plateia que considerava aquela projeção correta, e que a proporção de respostas positivas deveria ter sido mais alta.

Prossegui mencionando a notícia sobre a Apple, e também o fato de que, nesta década, a contribuição das oito economias emergentes que chamo agora de “Mercados de Crescimento” – Brasil, Rússia, Índia e China, bem como Coreia, Indonésia, México e Turquia – para a economia mundial será equivalente ao dobro da contribuição conjunta de Estados Unidos e Europa. Apenas em 2012, a China vai criar o equivalente econômico a uma nova Espanha e, nos próximos 18 meses, os quatro países do Bric devem criar o equivalente a uma nova Itália. Nesta década, o mundo deve crescer cerca de 4% a 4,5% ao ano, mais do que os aproximadamente 3,5% observados anualmente nas últimas três décadas.

Segundo mito. A China cresce à custa do restante do mundo.

Esta ideia ainda é muito popular nos Estados Unidos, mas as evidências indicam que está se tornando cada vez mais constrangedor sustentá-la. Além de evidências como as que a Apple acaba de apresentar, as informações do primeiro trimestre mostram uma acelerada mudança no desempenho do PIB chinês.

Muitos se concentraram no fato de o crescimento anual do país, de 8,1%, ter sido o mais baixo dos últimos três anos, mas isto não surpreendeu. Quem acompanha a China sabe há 15 meses – desde o anúncio do 12.º plano quinquenal – que Pequim não deseja mais um crescimento de 10% ou mais.

Assim, a verdadeira novidade no PIB do primeiro trimestre é o fato de cerca de três quartos do crescimento terem sido aparentemente impulsionados pelo consumo pessoal, algo que, somado aos dados relativos ao comércio, sugere que a China já teria ajustado a própria economia com considerável competência. O superávit em conta corrente do ano passado não foi muito superior a 2% do PIB e deve seguir a mesma tendência este ano, sendo talvez um pouco inferior a esta marca. Hoje em dia, a China não cresce à nossa custa, e além disso proporciona estímulo para o restante da economia mundial – algo que qualquer executivo de uma empresa alemã pode confirmar.

Terceiro mito. Estamos convivendo com uma crise global de endividamento soberano.

Por causa do notável caos observado na Europa, isto se tornou uma crença amplamente disseminada. Mas, por piores que sejam o déficit fiscal e o endividamento, a média ponderada do déficit e do endividamento da zona do euro é mais baixa que a dos EUA e consideravelmente mais baixa que a do Japão, sendo comparável à da Grã-Bretanha.

Ainda assim, nenhum desses três países experimenta problemas no mercado dos títulos de seu governo. Acho provável que o caso da crise na zona do euro seja mais complexo do que uma simples crise de endividamento soberano.

Na minha opinião, trata-se na verdade de uma crise envolvendo a estrutura, a liderança, o governo e até as características dos membros do euro. Analisando seu passado, vemos que um número excessivo de países entrou para o euro num momento em que isto não era recomendável, como alertaram com antecedência os mais céticos, e é difícil administrar uma união monetária quando todos os membros defendem os próprios interesses em detrimento das metas compartilhadas. Os mercados simplesmente se deram conta disto, duvidando agora do compromisso de alguns países chave com o futuro da união.

A situação vai se complicar mais antes de melhorar, conforme a Alemanha, em especial, se veja obrigada a tomar decisões difíceis envolvendo as medidas com o intuito de sustentar sua visão de longo prazo, que prevê a criação de algum tipo de Estados Unidos da Europa. No fim, para que isto ocorra, é provável que seja necessária a criação de um genuíno mercado único de títulos governamentais em euros, no qual parte substancial da dívida de cada país membro terá a mesma classificação de crédito. Se os governantes chegassem a algum tipo de acordo quanto a isto e deixassem claro que a possibilidade poderia se tornar concreta no futuro, então suspeito que a aparente crise desapareceria. Mas, para a Alemanha, não é fácil aceitar isto.

Quarto mito. Acabaremos afetados pela deflação ou pela inflação acelerada.

Em todas as partes do mundo que visito, muitos investidores parecem estar convencidos que estamos destinados a enfrentar um destes dois extremos. Pode soar deprimente, mas creio que isto seja consequência do choque de 2008 e dos extraordinários desafios enfrentados pelos governantes após a imensa rodada de estímulo fiscal e monetário que se seguiu – e especialmente do contínuo apoio monetário oferecido por muitos bancos centrais em todo o mundo.

Entre os que creem na deflação, muitos parecem crer que os governantes não serão capazes de impedir o inevitável e, quando seus programas de estímulo perderem força ou se esgotarem, o setor privado de muitas economias sofrerá erosão, mergulhando numa deflação como a vista no Japão. Em alguns países, principalmente na zona do euro, as políticas para melhorar a saúde fiscal já dão sinais de estarem produzindo o aprofundamento das recessões, conferindo credibilidade a alguns exemplos localizados desses temores. Por sorte, as evidências nos EUA e em muitas outras economias sugerem o contrário.

No outro extremo do espectro, muitos temem um acentuado aumento na inflação. Enquanto os governantes insistem em medidas para afastar uma recessão profunda, especialmente nos EUA, essa teoria sugere que as consequências de todo este excesso serão traduzidas na forma de inflação mais alta. Muitos mencionam o rápido aumento no preço das commodities, especialmente o petróleo e o ouro, como claros indícios de tal tendência. Para torná-la impossível de se combater, falta apenas uma espiral inflacionária nos salários como a vista nos anos 70.

O único problema desses temores – um problema considerável – é o fato de poucos dados indicarem a proximidade de um surto inflacionário condizente com tais previsões. Os dados inflacionários são razoavelmente tranquilizadores, assim como os indicadores importantes para a inflação no longo prazo, como o índice de cinco anos da Universidade de Michigan. Na minha opinião, é bem provável que a inflação mundial permaneça baixa, além de positiva.

Quinto mito. O dólar vai desaparecer enquanto moeda de reserva.

O principal problema que vejo nesta opinião é: se é tão claro assim, por que o dólar se valoriza em relação a outras moedas quando os mercados mundiais se assustam, mesmo quando a preocupação central é a situação nos próprios EUA? Se os investidores realmente temessem quanto ao futuro do dólar enquanto lastro monetário, isso jamais ocorreria.

Como tenho mostrado nos últimos dois anos, as principais moedas concorrentes parecem estar numa competição entre irmãs feias. Qual das principais moedas globais seria a menos feia? Será que os investidores querem mesmo possuir euros? Será que querem ienes? Creio que não – eu não gostaria de possuir estas moedas. E quanto ao franco suíço? Não podemos mais recorrer a ele para tal função, agora que o banco central suíço introduziu uma política bastante agressiva para deter sua valorização.

E o desafio se espalha. O real brasileiro perdeu bastante valor este ano conforme os governantes se dão conta de que a fonte de sua força anterior estava nos juros reais relativamente altos, tentando agora reduzi-los deliberadamente (uma política que me parece correta, levando-se em consideração os desafios que o Brasil deve enfrentar no longo prazo). Assim, ainda que apenas em decorrência da ausência de concorrentes de peso, a situação do dólar não preocupa.

A única moeda na qual a maioria das pessoas estaria disposta a investir como alternativa é o yuan e, como sabemos, esta escolha traz restrições. Além disso, levando-se em consideração o declínio no superávit em conta corrente da China, talvez o yuan não seja uma aposta tão garantida assim. Suspeito que, por mais que o dólar enfrente uma concorrência mais expressiva por parte do yuan e de outras moedas dos Bric no futuro, a concorrência não será algo ruim – como ocorre nos demais aspectos da vida, seu efeito é positivo. O dólar pode conviver com ela.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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