Guru verde fez autocritica. E agora?

 Vamos Combinar

Por Paulo Moreira Leite

Aos 92 anos de idade, o inglês James Lovelock é um dos gurus do ambientalismo moderno. Produziu inúmeras manchetes com sua capacidade de anunciar uma catástrofe por minuto. Convencido de que a Terra iria se tornar um planeta inviável pelo aquecimento global, chegou a dizer que em breve os pólos seriam o melhor lugar para se viver. Seu livro mais conhecido, a Hipótese Gaia, discutia a Terra como fosse um ser vivo.

Agora, o guru fez autocrítica. Sua coragem merece aplauso.

“O problema é que não sabemos o que o clima está fazendo, embora achássemos que sabíamos 20 anos atrás. Isso levou à publicação de alguns livros alarmistas, inclusive os meus”, disse Lovelock, especialista justamente em química atmosférica.

Ele continua: “O clima continua fazendo os seus truques de sempre. Não tem nada de muito emocionante acontecendo agora.”

Lembrando os absurdos que anunciava há poucos anos, Lovelock admite que, se suas previsões estivessem corretas, a Terra deveria estar a “meio caminho de virar uma fritura.”

Em seu depoimento, o pensador toca numa questão essencial, que envolve o papel da atividade humana no aquecimento do planeta.

Se basta usar o termômetro para verificar que a temperatura da Terra está em elevação, e pode crescer 2 graus até o fim do século, a pergunta real é: seria a atividade humana a principal responsável por isso, como quer grande parte dos ambientalistas? Seríamos, então, obrigados a suspender o desenvolvimento em nome da salvação da espécie?

Deveríamos, então, desindustrializar a economia, diminuir o crescimento, rebaixar o emprego e assim por diante?

O pensador diz: “é estranho que a temperatura global da Terra não tenha passado por nenhum aumento nos últimos 12 anos, enquanto os níveis atmosféricos de CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono), principal gás que esquenta o planeta, continuam subindo e batendo recordes.”

São colocações importantes, que permitem repensar verdades assumidas e repetidas.

Sou um cidadão preocupado com o meio ambiente, na justa medida em que permite elevar a qualidade da vida humana.

Esta é a minha referência e a de tôdas pessoas lúcidas, creio.

E é por isso que não posso deixar de assinalar uma conhecida coincidência diante do alarmismo ecológico no estilo Lovelock.

Foi preciso esperar que os povos pobres e menos desenvolvidos do planeta começassem a ter acesso às vantagens da vida moderna e do progresso econômico, melhorando a qualidade de sua existências em vários aspectos, para que o pensamento acadêmico do hemisfério norte começasse a dar crédito às velhas visões  catastrofistas sobre o meio ambiente e a destruição da natureza.

Elas sempre existiram. Mas seu uso varia conforme as necessidades do momento.

A alegação é que a própria espécie humana está ameaçada – daí a utilidade ideológica dos apocalipses verdes.

O reconhecimento de um pensador tão importante implica em fazer uma pergunta que caiu de moda assim que a ecologia entrou em alta: será que, em vez de temer a agressão à natura, o que se teme de verdade é a ruptura da divisão internacional do trabalho (e da riqueza) em vigor no planeta desde os séculos XIX e XX?

Vamos falar sem rodeios. O ambientalismo é um movimento paralelo à desindustrizalização do países desenvolvidos e ao esvaziamento de suas sociedades. Os bons empregos acabaram, as perspectivas de crescimento diminuíram, as conquistas dos 30 anos gloriosos do pós-Guerra ficaram na saudade.

Imagine, neste cenário, o que vai acontecer com o Primeiro Mundo se o crescimento da China seguir no mesmo ritmo, por duas décadas. Imagine se a África libertar-se de vários fantasmas do colonialismo e conseguir entrar num caminho de prosperidade, com toda aquela riqueza natural a ser explorada?

Dê uma chance a si mesmo e pense um pouco no Brasil.

Será que esse deslocamento mundial da riqueza, dos empregos, do conhecimento, não afeta o destino de países que eram o centro da economia mundial há 50 anos e podiam determinar o desenvolvimento dos demais ao sabor de seu gosto, conveniência e ideologias?

Responda com sinceridade: você acredita que a ecologia cresce por autopiedade? Não há nenhum interesse envolvido?

O alarmismo ecológico alimentou uma forma de maltusianismo moderno e sem base científica como na versão original. Seu mantra presente e jamais confessado é questionar o direito de que todos os homens e mulheres possam partilhar um mesmo patamar civilizado de existência, com seus custos, exigências e benefícios.

O pressuposto dessa visão consagra a existência de duas (ou três, quatro, quem sabe cinco) categorias de povos e países, cada um com um patamar aceitável de progresso e bem-estar.

Desde a idade das cavernas nós sabemos que as ideologias sempre se apresentam como uma resposta para o conjunto da espécie humana. Jamais admitem que vão beneficiar um determinado grupo, classe ou país.

A pergunta é saber quando temos uma visão generosa de futuro, mesmo com muito elementos utópicos – e quando é apenas um argumento egoísta, bem embalado para seduzir um número cada vez maior de desavisados.

O grande desafio que o desenvolvimento dos países emergentes – que seguem os menos prejudiciais ao meio ambiente, certo? — coloca para as sociedades modernas é outro. Diz respeito a organização do progresso e não a seu impedimento.

Falando com mais ênfase: o desenvolvimento não deve ser contido, mas estimulado. É isso o que nossas sociedades precisam: emprego, bem-estar, consumo, cultura.

Ao contrário do que imaginam os Lovelocks, o desenvolvimento dos países emergentes irá beneficiar inclusive a maioria da população dos países centrais.

A nossa capacidade de produzir riquezas é cada vez maior em função do avanço tecnológico – o que coloca a discussão sobre a melhor forma de redistribuir tempo de trabalho e renda para que o progresso seja acessível a um número cada vez maior de pessoas. Essa é a discussão.

Para dar só um exemplo: o envelhecimento da população é ótimo, como percebe qualquer pessoa que já examinou a alternativa  – mas precisamos aprender a construir estados de bem-estar social sustentáveis e universais, em vez de acreditar em fórmulas privatizantes de previdência e planos de saúde que excluem a maioria das pessoas, empobrecem a sociedade e inviabilizam o futuro.

O debate é este.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/40940-guru-verde-renega-catastrofismo-climatico.shtml

Anúncios

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
Esse post foi publicado em Espaço Sustentável e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s