O pior é que ninguém vai fazer autocrítica

 

Vamos Combinar

 

Por Paulo Moreira Leite

O placar de 10 a 0 a favor das cotas no Supremo deveria fazer seus adversários refletir sobre a própria atuação.

Seria razoável levantar algumas perguntas: aonde erramos? Por que se aprovou uma medida que combatemos com tanto empenho, por uma diferença tão colossal? Será que todos os argumentos a favor das cotas são apenas demagógicos e absurdos?

Duvido que isso vai acontecer. E é fácil entender por que.

Ao longo dos últimos dez anos as cotas foram combatidas pelo conjunto dos grandes meios de comunicação do país. Formou-se uma unanimidade que não se viu sequer no tempo da abolição da escravatura. Em 1888 o Estado de S. Paulo e o Diário Popular, por exemplo, tinham a abolição do cativeiro como ponto de honra. O Estado combatia a escravidão em editoriais e artigos. O Diário ia além. Recusava-se até a publicar anúncios de compra e venda de escravos.

Mesmo assim, o STF, instituição que não funciona com base no voto popular, e tem manifestado uma sensibilidade imensa em relação a opinião dos meios de comunicação,  resolveu aprová-las. Por que?

Porque as cotas não foram aprovadas como uma idéia que nasceu nos últimos dez anos, num supostos plágio ideológico de um processo vivido nos Estados Unidos na década de 60. Ainda que seja puro provincianismo de ocasião falar em modismos importados num  país que trouxe ideias  excelentes de fora – como a democracia, a própria abolição do cativeiro, a liberdade de imprensa, as universidades públicas – as cotas foram plantadas, semeadas e colhidas como um produto autenticamente brasileiro.

Sua base real não se encontra na pregação de militantes do MNU e seus descendentes que, abnegados, esforçados, injustiçados e bem intencionados, jamais tiveram acesso a um espaço tão amplo, generoso e positivo como seus adversários. Pergunte pelo nome de um adversário das cotas e logo vários vêm à mente. Com destaque para o senador Demóstenes Torres, aquele que se dedicava a defender a democracia racial sempre que a agenda de Carlinhos Cachoeira permitia. Mas pergunte pelo nome de um militante das cotas. Não temos nenhum. Foi uma luta sem Dante de Oliveira (das diretas), sem Nelson Carneiro (do divórcio), sem Maria da Penha (da lei Maria da Penha).

As cotas são a contrapartida histórica e inevitável da iniqüidade estrutural da sociedade brasileira. Estava na cara que o país vivia e alimentava uma perversidade que não poderia ser mantida para sempre.

As cotas foram plantadas, irrigadas e colhidas desde que, abolida a escravidão, jamais se deu ao negro brasileiro o direito a uma reparação capaz de compensá-lo pelo massacre histórico do cativeiro. Foram 124 anos de abandono, opressão e desprezo. Hoje parece absurdo mas todas as políticas em relação ao negro brasileiro neste período foram exercícios para fingir que ele não tinha motivos para se queixar.

A democracia racial nunca passou de um mito destinado a simular uma igualdade que nunca foi real. Nunca. Na grande maioria dos casos a miscigenação – base de uma utópica sociedade “única” e “diferente” — sempre se baseou em contatos mistos do tipo senhor e escrava, desiguais, opressores, uma “falocracia”, como definiu o professor Alfredo Bosi.

Já o racialismo foi a doutrina-recorde: tenta culpar por antecipação a vítima do racismo pelo surgimento de eventuais “tensões raciais” toda vez que o brasileiro negro conquistar um grama de direitos democráticos.  É claro que não poderia convencer ninguém.

Em vez de acreditar em lendas sem base na realidade, os adversários das cotas poderiam ter assumido outra atitude, se tivessem, de fato, solidariedade e compaixão pelos brasileiros que formam o chão da sociedade, como os mais pobres entre os pobres, os mais calados entre os silenciosos. Poderiam ter feito aquilo que sempre se soube que era preciso fazer: dar boas escolas, meios de trabalho e de integração aos brasileiros que saíram do cativeiro. Isso teria evitado as cotas, pois daria nascimento a uma sociedade mais equilibrada e mais igual.

Essa seria a autocrítica a se fazer.

Em vez de se tomar medidas dolorosamente óbvias, preferiu-se jogar os negros brasileiros em qualquer canto, mas sempre no último lugar da fila, imaginando que seriam eternamente incapazes de reagir e encontrar uma saída.

Doze décadas depois, o vergonhoso atraso social do Brasil chegou a um ponto tão escandaloso que não havia mais tempo histórico para mudanças convencionais, lentas, evolutivas. Para muitas pessoas, ficou claro que era preciso tomar providências para responder a anseios legítimos de justiça e igualdade, há muito reprimidos. Essa é a raiz das cotas. Foi essa compreensão que levou o Supremo a aprová-las.

A incapacidade de compreender o que ocorria e agir a tempo está na origem dos 10 a 0 de ontem. Nada mais do que isso. Mas você espera uma autocrítica?

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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