Já alugam policiais na Grécia. E agora?

Vamos Combinar

PAULO MOREIRA LEITE

 

Leio nos jornais que na Grécia já estão alugando policiais para ajudar o Estado a pagar as contas e assim permitir que os bancos recebam seus lucros de volta. Pelo que entendi, é assim: você precisa de um guarda para tomar conta da rua, vai até a delegacia e contrata o cara por algumas dezenas de euros. Precisa de um carro, vai até lá e aluga uma viatura.

Escrevo isso e penso: o que mais está sendo alugado na Grécia, além de policiais e viaturas?

Seria a dignidade nacional?

Ou são apenas médicos, professores, políticos, enfermeiros … nem quero escrever o que estou pensando porque seria obsceno.
Mas impossível não pensar: o que ainda não se pode comprar nem alugar na Grécia, hoje?
Confesso que levei alguns anos para aceitar a ideia de que a capacidade de exploração dos homens não tem limite — apenas sua capacidade física.
Eu pensava, por exemplo, que há um patamar mínimo abaixo do qual ninguém ousa avançar porque aí se ameaça a sobrevivência da espécie. Essa seria a função, imaginava, do salário mínimo. Engano.
Há situações em que a pessoa recebe menos do que precisa para sobreviver e segue vivendo. Morre, desmaia, não consegue se mexer. Mistura trabalho, mendicância, delinquência. Em momentos particulares da história, isso pode acontecer com um povo inteiro.
Será este o futuro da Grécia?
Imagine como se encontra o país, hoje. Mesmo para quem foi ocupado pelos nazistas durante a Segunda Guerra, e que jamais teve direito a ser indenizado pela imensa destruição causada pelas forças de ocupação militar — será muito abuso acusar os alemães de ocupação financeira da Grécia hoje ? — o que se assiste representa um novo degrau de vergonha e crueldade.
A Grécia foi atacada em sua soberania. Traída pelos banqueiros e por uma parcela dos parlamentares, que impediram o país de decidir de forma democrática se aceitaria ou não submeter-se a um pacote dos bancos europeus — que nem pagaram o prometido até agora — agora ela é atacada em sua sobrevivência.
Vamos combinar: o que separa a Idade Média da idade moderna é o crescimento das cidades e o nascimento do Estado, com seus direitos e prerrogativas, entre os quais o poder de polícia, a segurança, o monopólio da violência.
O Estado não pode ser alugado nem comprado. Não pode ser assim, de forma descarada e aberta, como alguém que entra na delegacia e leva para casa os responsáveis pela Lei e pela Ordem como se estivessem dentro de uma lata de refrigerante adquirida num supermercado.

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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