Paulo Mendes da Rocha: O centro da cidade e o discurso do trabalho

 SP2040 

Falar com Paulo Mendes da Rocha é um privilégio. Sobretudo, se o tema for São Paulo. Como se não bastasse a mente privilegiada, de quem sabe aproveitar um dia após o outro construindo e lapidando o conhecimento, aos 83 anos, ele é um colecionador de lembranças sobre a cidade que viu crescer, ela e ele, simultaneamente. Foi em São Paulo que esse capixaba, de Vitória, frequentou os primeiros bancos escolares (chegou aqui aos quatro anos), andou de bonde por todas as direções e ensaiou os primeiros passos de conquistador, oferecendo chá nos melhores endereços do centro da às mocinhas (do Colégio Sion) que lhe roubavam o sono. Também foi em São Paulo, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, que Paulo Mendes da Rocha se formou em arquitetura (54) para depois dar aula na FAU, anos 60, a convite de Vilanova Artigas.

Detentor do prêmio Pritzker, o mais importante de sua atividade em todo o mundo, também se mostra imbatível na apreciação da cidade que tanto lhe diz – da periferia ao centro, da ausência de planejamento ao crescimento desordenado (“um descalabro”) da metrópole, salvo pelo programa municipal de habitação em áreas precárias (“interessante”) que permite inclusive a participação de jovens escritórios de arquitetura. Imperdível, como se demonstra a seguir.

SP 2040: Você, que veio criança de Vitória para São Paulo, tem uma relação especial com São Paulo?

Paulo M. da Rocha: Se esta cidade me diz muito? Bem, em 1930, ela não era o que é hoje, posso até dizer que o porto de Vitória, para um menino, era algo mais civilizado do que São Paulo, de certa forma um lugar mais apropriado para educar, ao menos, naquela época… Melhor dizendo: é impossível ser educado em apenas um lugar.

SP 2040: Que impressão você guarda da cidade daquele tempo?

Paulo M. da Rocha: Meu pai veio para cá numa situação econômica apertada, tanto é verdade que a minha família foi parar numa pensão na Avenida Paulista, alguém tinha feito de um daqueles casarões uma pensão, era a “pobreza escondida”… Onde o aperto era tanto de quem morava como de quem alugava. Minha mãe, muito zelosa, me colocou para estudar na própria Paulista, um colégio que não existe mais, perto da esquina com a Augusta – e onde hoje fica o Banco Safra, veja só as transformações que assisti nesta cidade… Era o Ginásio Paes Leme. Bem, essa pensão ficava perto da Brigadeiro Luis António, eu tinha de andar quase a Paulista inteira para ir à escola, passando em frente ao grande vazio que, na época, era o lugar onde hoje está o MASP. Na cabeça do menino que eu era, existia a consciência de estar percorrendo uma avenida cheia de palácios e gente muito rica e onde, às vezes, se falavam palavras que nunca tinha ouvido na vida, uma linguagem que não se usava na minha terra…

 

SP 2040: Quer dizer que conheceu, na pele, a São Paulo da garoa?

Paulo M. da Rocha: Você me fez lembrar uma imagem bastante anedótica… Naquela época, a neblina que baixava em São Paulo, no começo de tarde ou de manhãzinha, era muito forte, você era incapaz de ver o outro lado da Paulista! E, claro, sempre havia um magote de meninos andando por ali, o que era aproveitado para inúmeras brincadeiras… Pois, foi então que aconteceu, em um final de tarde fechado de neblina, que uma luz forte andando passou do outro lado da avenida… E os meninos pararam de pronto, eles e eu, todos nós querendo saber que luz era aquela e que ainda por cima andava! Foi quando um dos meninos esclareceu, um tipo muito engraçado, “ah! só pode ser o famoso criado-mudo!”… Não é uma maravilha? (rs) Imagine se alguém falava, em Vitória, em criado-mudo, devia ser mesinha de cabeceira, sei lá! Inclusive essa figura de criado não existia em casa. Já, na Paulista, os empregados usavam coletinho listrado e os motoristas eram fardados com perneiras e boné, um luxo.

SP 2040: Você tem saudade dessa cidade?

Paulo M. da Rocha: Não tenho saudade de nada, nem sei bem o que quer dizer saudade. Saudade serve para fazer poesia, samba. Trabalhando, você não pode saber o que é saudade… Se eu sinto falta de algo em São Paulo? Bem, tenho certeza de que sinto certa nostalgia da ideia de centro da cidade, a de ser o recinto do discurso do trabalho, onde os homens, os cidadãos, trabalhavam… O desejo de ser homem adulto era muito claro entre nós, ter uma profissão e abrir um escritório no centro da cidade, o centro da inteligência. O que edita o bairro, em consequência… Uma das melhores virtudes da cidade é possuir, no seu coração, uma universidade, o que sempre aconteceu em São Paulo – foi uma grande tolice tirar a universidade do centro, isso para dar uma ideia do meu conceito de cidade.

SP 2040: Com o tempo, São Paulo atraiu todos a trabalhar por aqui…

Paulo M. da Rocha: São Paulo era bastante enérgica em relação a um Brasil que não se mexia e, por meio da consciência da urbanização no âmbito popular, atraiu, digamos, gente de todo o País, tanto que o operário da construção civil é chamado de “baiano” pelo paulista… O que deve ser motivo de orgulho para os baianos, a propósito. Já dá, portanto, para ver que a favela é a expressão mais inteligente sobre a consciência de urbanismo que o condomínio de luxo fechado… Enquanto o condomínio pode ser entendido como fruto de uma degenerescência da ideia de cidade, do viver na cidade, a favela é a essência do dizer “seja como for daqui não saio!”.

SP 2040: Acredita ser possível colocar ordem no modo de viver paulistano?

Paulo M. da Rocha: O que interessa é tentar o planejamento, não sou otimista em relação a nada, só sei que temos de fazer. Prefiro pensar não que o mundo vai acabar, mas sim que vamos lutar até o fim, aliás, o que estamos fazendo aqui é o reflexo de uma tomada de consciência aguda sobre essas questões…

SP 2040: De que modo você se desloca em São Paulo?

Paulo M. da Rocha: Ando de metrô, táxi e também a pé por São Paulo. Dirijo muito bem, mas não é confortável, muito menos inteligente, andar de carro por esta cidade. A ideia de morar num condomínio fechado a dezenas de quilômetros longe das áreas de emprego está tendo agora o resultado merecido, não é possível que as pessoas só comecem a pensar nisso neste momento… É um dos sintomas do consumismo, uma mudança de hábitos talvez fruto da propaganda – outro caso é o terraço-gourmet, onde se faz o churrasco, imagine isso se repetindo em cada terraço de um edifício de 20 andares, o prédio inteiro fedendo a gordura, um absurdo! Porque a ideia de churrasco implica no encontro de amigos, na confraternização – e não colocar bermuda e família em um espaço minúsculo, é ridículo, é um desgosto para qualquer costela de vaca…

SP 2040: Afinal, dá para morar bem em São Paulo?

Paulo M. da Rocha: Morar bem é morar na cidade. Acho louvável o que parece estar sendo feito no plano de longo prazo… O pior, em um plano, é a degenerescência. Porque a natureza não faz concessões. É preciso partir do essencial, depois discutir se vai pintar de rosa ou não… aliás, se for possível não destruir nada melhor! Agora, quando se abandona o centro da cidade e vai todo o mundo para a Avenida Faria Lima, um movimento que desvaloriza os terrenos do centro para que eles ganhem outro valor bem mais em conta, todo mundo está careca de saber que quem ganha com isso é a especulação imobiliária, daí a questão, até que ponto o poder público vai policiar o descalabro da especulação? Ela não pode ser o tema da urbanização! Quem trabalha com planejamento no governo, deveria ter um discurso claro sobre isso.

SP 2040: Voltando no tempo, onde você já morou em São Paulo?

Paulo M. da Rocha: Morei na Paulista, como disse, depois minha família mudou para uma casa agradável no Jardim Paulista, nós usávamos o bonde para ir ao colégio, ele descia a Pamplona e ia para o centro, estudei no colégio S. Bento. Era muito agradável atravessar toda a extensão da Rua São Bento, de manhã, bem cedo… O prédio Martinelli já estava lá, uma instituição, aliás, todo o centro era uma instituição, estávamos nos anos 40 – lembro-me de uma carroça grande, lotada de novelos de lã, puxada por burro que passava na mesma hora… O condutor assoviava muito bem! O lixo, nessa época, também era recolhido por carroças puxadas por burros, o pão era entregue nas casas da mesma forma… E havia a oferta de leite de cabra, eram uns portugueses que tinham chácaras lá embaixo, no Itaim, e vendiam o leite nas portas de casas como a nossa, no Jardim Paulista, eles puxavam umas cabras de sininho…

SP 2040: Você tinha o hábito de ir namorar no centro?

Paulo M. da Rocha: Namorar? Ah!, sim, marcava-se encontro com as mocinhas do Sion para ir às casas de chá do Mappin, onde se podia levar meninas dessa estirpe… (rs) Adolescente, eu andava de bonde pela cidade inteira, descia a Angélica até o ponto final, na Praça do Correio, para se divertir no centro, ir aos cabarés e bares, era tudo na Avenida S. João… Jogava-se sinuca na Praça da Sé, um sobrado muito bonito com dez mesas das melhores!

SP 2040: É possível tornar o centro paulistano outra vez sedutor?

Paulo M. da Rocha: Para mim, o centro nunca deixou de ser sedutor. Continuo a trabalhar no centro, muitas vezes vou a pé até o meu escritório, hoje moro em Higienópolis… É possível, sim, torná-lo de novo sedutor, afinal, o centro nunca deixou de ser o que ele sempre foi, tem gente que ainda mora por aqui, na Avenida São Luís, no Copan – o edifício Eiffel, na Praça da República, é um dos exemplos mais interessantes de habitação que existe em São Paulo, trabalho do Niemayer… Porque ninguém, em tese, deve estar querendo mais morar em condomínio fechado, é difícil educar um jovem num condomínio fechado. O grupo chamado pais, aqueles que se responsabilizam pela educação da prole, sabem muito bem como é difícil educar uma criança e depois um jovem numa habitação desse tipo, se você está cercado de guardas armados, jogando tênis só com os vizinhos e saindo de automóvel para ir ao cinema, se você não consegue ir a pé nem mesmo para a escola, se você está nesse confinamento que é um condomínio chamado fechado, bem, você não está vivendo em um lugar de convivência e, portanto, nem experimenta sua cidadania – não tem liberdade alguma para fazer o que se bem entende, isso só é possível na cidade.

SP 2040: E a periferia, como vai a periferia da maior metrópole da América Latina?

Paulo M. da Rocha: A periferia é a cidade, inclusive a ponta do metrô é a periferia. Não é essa que está aí, onde foram viver os chamados baianos que vieram com a trouxa na mão e em pau de arara para ajudar a construir esta cidade por absoluta falta de planejamento, um desastre, uma falta de previsão completa sobre tudo, São Paulo não podia ter se desenvolvido a ponto de ser uma cidade de cerca de 20 milhões de habitantes, enquanto a capital tem quase 2,5 milhões, um descalabro, o Brasil sem planejamento não cresceu de modo coerente com a sua dimensão e os seus recursos naturais, não estou falando de mandioca nem de cacau, mas sim de rios, navegação fluvial, transporte pelo interior, novas solicitações para inúmeras cidades que poderiam ter costurado a América Latina de outra forma que a prevista pela política colonial do Tratado de Tordesilhas… O que você quer que eu diga? Não sou eu que vou resolver as cidades, mas sim as instituições, os governantes! Agora, o trabalho que a Secretaria Municipal de Habitação anda fazendo na periferia, dando oportunidade inclusive a jovens escritórios de arquitetura em áreas de habitação precária da cidade, é muito interessante. Está sendo feita uma recomposição do casario dessas favelas, suprindo esses lugares com atrações de caráter de convivência, editando a experiência da cidade de modo efetivo junto desses conjuntos de habitantes…

SP 2040: Como seria a São Paulo que você mais deseja?

Paulo M. da Rocha: Isso não pode ser idealizado, não é visível assim… Mas eu quero viver numa cidade que não tenha de conviver com uma crise mundial, eu não acredito que se possa viver bem quando um está mal, temos de cuidar do mundo, o estado do planeta é também responsabilidade da Universidade de São Paulo, nós queremos ser bons entre os bons e não melhores que os outros… Agora, o que realmente me dá prazer, olhando a janela, é que o povo, o que se chama povão, ocupou o centro – e eu espero que ele não saia nunca mais! Ninguém gosta de dormir na rua, isso é um problema que terá de se resolver, mas o que o povão está dizendo é que quer ficar ali e não ser empurrado de novo para a periferia. O centro da cidade é o melhor lugar para a habitação popular.

SP 2040: Você acredita que um plano de longa duração pode ser a solução para São Paulo?

Paulo M. da Rocha: Acreditar, eu não acredito, isso é coisa de Igreja… Mas temos de trabalhar para que esse plano dê certo, é preciso trabalhar com esse objetivo. Aliás, é de se esperar que ele dê frutos, planejar sem a visão imediatista, de simples correção de uma coisa aqui para errar mais ali… A ciência é feita para amparar com largos horizontes sobre o que se chama projeto, plano. Espero que ele seja feito com ciência e saber – e não só com opiniões.

(Texto de Marion Frank; foto de Arquivo)

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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