Autoridades não entenderam nada em Pinheirinho

Vamos Combinar

Paulo Moreira Leite

 

Encerrada a ação de despejo de 6 mil pessoas na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, ocorreu uma troca de congratulações e cumprimentos entre as autoridades. Vejam o que disse um coronel da PM:“Estamos bastante exaustos, foram vários dias de trabalho, mas felizes porque não houve nenhuma vítima na relação com a Polícia Militar. Com isso, a PM cumpriu
seu papel de apoio ao poder judiciário”.

Um representante da Justiça lembrou do massacre de Eldorado do Carajás,  para elogiar o despejo no Pinheirinho. Em 1996, no Sul do Pará, 19 trabalhadores foram mortos pela PM quando realizavam um protesto pela demarcação de terras. Disse ele: “Gostaríamos de expressar nosso agradecimento pelo belo trabalho executado pela Polícia Militar. Uma ação bem planejada e muito bem executada. Para aqueles que imaginavam que haveria um novo Eldorado do Carajás, um massacre, essa ação limpa demonstrou que esses temores eram absolutamente infundados. Hoje se cumpre a reintegração de posse”.

A verdadeira pergunta é: “belo trabalho”?

Do ponto de vista de quem se pode falar numa “ação bem planejada e muito bem executada”? Quem é que está  ”exausto” depois de domingo?

Leia uma rápida descrição da vida real num abrigo improvisado:

“Falta de água, calor excessivo, superlotação, pessoas passando mal, crianças chorando: em questão de minutos, o novo abrigo para os moradores despejados da comunidade Pinheirinho, um ginásio no bairro Parque do Morumbi, zona sul de São José dos Campos (SP), virou um caos. Os dois únicos banheiros do ginásio estão sem água. Os chuveiros e as descargas não funcionam. Os desabrigados reclamam do calor excessivo no interior do local. Até as 18h desta quarta-feira (25), pelo menos quatro pessoas foram hospitalizadas após se sentirem mal. As cerca de 1 mil pessoas que foram alojadas no local estavam na igreja do bairro Campo dos Alemães, vizinho ao Pinheirinho, onde não estavam recebendo assistência da prefeitura. Elas haviam se recusado a ir a abrigos da prefeitura — onde os alojados recebem comida, produtos de higiene e colchões — temendo as condições do local.

Hoje, decidiram migrar para o ginásio, após a igreja alegar não ter mais condições de abrigar as famílias. Caminharam por cerca de 4 km, sob um calor de 35ºC, até o novo abrigo. Diante da situação, a Prefeitura de São José dos Campos decidiu que
irá distribuir as pessoas em outros abrigos –um deles no Jardim do Sol, também na zona sul do município.”

Diante dessa situação, a troca de congratulações chega a ser falta de pudor. O sofrimento dessas famílias merece mais consideração.

A falta de compaixão expressa a  incapacidade de entender que, em qualquer circunstancia, o ponto de honra do Estado deve ser a proteção dos desprotegidos, dos que ficam sem casa nem abrigo, mesmo que essa ação tenha base legal e jurídica. São famílias de trabalhadores.

A situação criada não pode ser motivo de alegria.

Parece tranquilizador mas é preocupante quando uma autoridade se diz feliz porque não ocorreu um novo massacre de Carajás. Quando se recorda que 19 pessoas foram mortas a tiro pela PM do Sul do Pará, cabe perguntar: a PM paulista iria agir com a mesma violência? Não teria outra forma de fazer cumprir a lei?

Cumprir a lei às custas da dor e do desamparo dos mais fracos sempre foi mais fácil.

Mas caberia ser mais cuidadoso diante de uma operação de demolição de um pequeno bairro popular, com biroscas, esgoto a céu aberto, igrejas, para devolver o patrimônio a um mega empresário, Naji Nahas, conhecido pelos cavalos de corrida, comportamento especulativo e por muitas relações incestuosas com tantos governantes.

Os milionários também tem direito a defender seus direitos mas o risco de criar um caso simbólico, uma impressão de esculacho geral em prejuízo dos mais pobres é muito grande.

Quando não se olha para isso, o cumprimento da lei pode ser inócuo e até inútil. Temendo transformar-se em alvo de represálias, o representante da Selecta, empresa que recuperou aquelas terras imensas, nem saiu do carro para assinar o documento de reintegração de posse.

Nossas autoridades não entenderam nada.

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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