Arquiteto: Domínio da indústria imobiliária sobre Salvador é patente

Terra Magazine

Eliano Jorge

A indústria imobiliária dita os rumos de Salvador, na opinião do professor Paulo Ormindo de Azevedo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia. “Isto é patente não só na escandalosa aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de 2007, como neste remendo atual”, avalia, referindo-se aos acréscimos que a Prefeitura tenta empurrar sob a nacionalmente onipresente justificativa da Copa do Mundo de 2014.

Em entrevista a Terra Magazine, ele assinala que “o mais grave é o processo de adensamento, a relação entre elevadores e ônibus”. Capital com maior densidade habitacional e terceira mais populosa cidade do Brasil, Salvador ergue “muralha de edifícios” sem planejamento, submetida a “um mercado imobiliário que está a ponto de explodir”, aponta o arquiteto.

– A demanda crescente de espaço está empurrando a cidade para cima e destruindo, na calada da noite, as últimas áreas verdes. Isto ocorre porque o Estado nunca se preocupou em infraestruturar a Região Metropolitana – atesta Ormindo, ex-presidente do Departamento da Bahia do Instituto de Arquitetos do Brasil.

Ou seja, prevalecem interesses de grupos privados na primeira capital do País, de 462 anos, em detrimento do ordenamento urbano. O tamanho do problema ganha dimensão numa observação simples:
– Desde a abertura das avenidas de vale, no final da década de 1960, não se fez mais nada pela mobilidade em Salvador. De lá para cá, a população da cidade triplicou.

Confira a entrevista.

Como o senhor avalia as discussões do PDDU de Salvador?
Paulo Ormindo de Azevedo –
O PDDU de 2007 ainda está em discussão na Justiça movido por uma Ação Civil Pública do IAB-BA, CREA-BA e associações comunitárias e ambientalistas, e já se quer fazer um puxadinho para atender a interesses que nada têm a ver com a Copa. No fundo, estão os interesses do setor imobiliário e do grupo que ganhou a PPP (Parceria Público-Privada) da Fonte Nova, que quer construir espigões e shopping center na gleba de 122.000 m² que ganhou do Estado. Ou se moralizam as PPP ou chegaremos ao endividamento que Portugal chegou, com PPPs sem nenhum controle da sociedade.

Qual é sua opinião sobre as mudanças para a orla marítima?
O pretexto é a construção de hotéis não só na orla como em muitos outros pontos da cidade. Salvador recebe meio milhão de turistas no carnaval e ninguém fica sem hospedagem. Os hoteleiros já protestaram, pois, passada a Copa, todos os hotéis ficarão com uma ociosidade muito alta. O que é preciso é requalificar os existentes e melhorar a mão de obra. Mas na verdade são apart-hotéis, ou em outras palavras, novos apartamentos para um mercado imobiliário que está a ponto de explodir.


Um dos maiores problemas de Salvador atualmente é o trânsito
(foto: Thiago Souza/ vc repórter)

O que deve ser feito para combater os problemas de ocupação urbana e mobilidade na capital baiana, para já e para longo prazo?
Desde a abertura das avenidas de vale, no final da década de 1960, não se fez mais nada pela mobilidade em Salvador. De lá para cá, a população da cidade triplicou. O funcionamento das linhas 1 e 2 do metrô, anunciadas para 2014, irá aliviar em parte a questão da mobilidade. Mas o mais grave é o processo de adensamento, a relação entre elevadores e ônibus. Na Avenida Paralela, se está construindo uma muralha de edifícios de apartamentos, uns colados nos outros, e ninguém quer morar ali.

Apesar de ter triplicado em população, a mancha urbana de Salvador teve um crescimento insignificante. Ela incorporou apenas o favelão de Itinga, em Lauro de Freitas (cidade vizinha). A demanda crescente de espaço está empurrando a cidade para cima e destruindo, na calada da noite, as últimas áreas verdes. Isto ocorre porque o Estado nunca se preocupou em infraestruturar a Região Metropolitana.

O senhor concorda que a indústria imobiliária tem dominado os rumos da cidade?
Sim, e isto é patente não só na escandalosa aprovação do PDDU-2007, como neste remendo atual. Só agora, no final de seu segundo mandato, sob pressão da sociedade, o prefeito (João Henrique Carneiro, do PP) admitiu instalar o Conselho da Cidade. O mais grave é que esta lógica imobiliária contaminou o governo estadual. É o próprio governador (Jaques Wagner, do PT) que está exigindo este PDDU da Copa, como mostra o jornal A Tarde de 21 de novembro de 2011. E é esta mesma ideologia que explica a intenção do Governo do Estado de vender as sedes de serviços essenciais à população, como a Estação Rodoviária, o Detran e o Desenbahia a um grupo imobiliário para financiar o metrô. É acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5526700-EI6586,00.html

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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