Entidade: Kassab prefere saciar apetite do setor imobiliário

Terra Magazine

Ana Cláudia Barros

Diretora do Movimento Defenda São Paulo, a arquiteta e urbanista Lucila Lacreta vê com preocupação o que chama de “superutilização do solo” na capital paulista. Incisiva, refere-se ao chefe do Executivo municipal, Gilberto Kassab (PSD), como “prefeito do setor imobiliário”.

– Esperava-se que o Kassab fosse ter um certo comedimento, uma vez que está no papel de homem público. Mas o que constatamos é que ele é o prefeito do setor imobiliário e esqueceu do resto da cidade. Tanto que o cidadão está a exigir a revisão do Plano Diretor, que nunca vem. E ele apresenta um plano São Paulo 2040, como se os problemas pudessem esperar 30 anos. E a discussão, aqui e agora, não ocorre.

Para a arquiteta, o “poder público municipal não equilibra o apetite voraz do mercado imobiliário com a qualidade de vida que as pessoas pretendem ter”.

– Prefere saciar o apetite a equilibrá-lo, como faz o mundo inteiro, que considera nefasta essa exacerbada superutilização do solo. Nós, cidadãos, ficamos à mercê desses interesses puramente imobiliários e vemos que a qualidade de vida se esvai dia a dia.

Como exemplo, a arquiteta fala sobre a permissão dada pela prefeitura para o novo shopping que será construído na esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona, no terreno onde ficava a mansão da família Matarazzo.

– A Avenida já está colapsada, apesar de ter metrô, o trânsito é muito intenso. Com o shopping, haverá mais um pólo gerador de tráfego referendado pelo poder público, o que é um contrassenso. Será criada ainda uma nova competição entre os comércios existentes, sendo que em outras partes da cidade, esse shopping seria muito bem-vindo. Poderia suprir o comércio que não existe ou é deficiente. Agora, ele é colocado no mesmo lugar onde já há esse tipo de infraestrutura em abundância, a ponto de criar uma concorrência onde não só esse novo comércio, como os que já estão ali consolidado, podem perder.

A representante da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Samorcc), Célia Marcondes, engrossa as críticas. Ela considera que o novo empreendimento pode provocar “danos irreparáveis” à região.

– É necessário, nesse caso, discutir o impacto disso. Falar quantas mil pessoas vão circular na área, quantos mil carros, o que terá no subsolo, no solo, o que terá em cima, porque torre é o que mais existe na região. Há questões sérias que deveriam ser tratadas e não foram. Achamos que a compensação ambiental, por exemplo, é incipiente. É um mero plantio de árvores de pequeno volume e porte – diz, numa alusão ao acordo para revitalizar a área, que estabelece o plantio de 106 mudas no interior do terreno e 621 no Parque Trianon.

Na avaliação de Célia Marcondes, o que prevalece hoje em São Paulo é o “desenvolvimento a qualquer custo”.

– Esquece-se da sustentabilidade, que, ao nosso ver, é o mais importante. Imagine o número de pessoas que devem frequentar esse local, numa área que não tem mais espaço, que não comporta mais. A (Avenida) Paulista está no limite de sua capacidade.

Terra Magazine procurou a prefeitura para falar sobre as críticas apresentadas pelas duas entidades e aguarda resposta.

Faria Lima

A diretora do Movimento Defenda São Paulo comentou ainda a aprovação, em primeira votação, na Câmara Municipal, do projeto de Kassab que autoriza a construção de mais prédios na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na Zona Sul da cidade, local onde há intensos tráfego de veículos e circulação de pessoas.

Se o projeto for de fato aprovado, a prefeitura terá o aval para emitir, dentro da Operação Urbana Faria Lima, mais 500 mil Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs) – títulos públicos que dão o direito de construir edificações com características fora das estabelecidas no Plano Diretor.

– Construir mais prédios na Faria Lima é uma loucura – diz, novamente categórica, acrescentando que falta transparência na discussão sobre os efeitos que as novas construções provocariam no território.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5499716-EI6578,00.html

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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Uma resposta para Entidade: Kassab prefere saciar apetite do setor imobiliário

  1. Gustavio disse:

    Sei que a notícia é antiga, mas sempre é preciso deixar um contraponto. A Paulista não está lotada, longe disso. Está vazia em vista do que poderia – e, quem sabe, deveria – abrigar. Tomemos as áreas comerciais da Santa Ifigênia, Brás e 25 de Março como exemplo. A população, principalmente esta parcela engajada em associações de bairro e setoriais, precisa conscientizar-se de que o trânsito simplesmente não importa. Cidades não foram feitas para carros. Não servem para automóveis de passeio – frise-se, passeio! Londres, Paris ou Roma funcionam para automóveis? Tóquio ou Hong Kong funcionam para automóveis? Manhattan funciona para automóveis? O pessoal mais viajado deveria saber que não. A solução é a tradicional: urbanização compacta, uso misto, verticalização adensada – ao contrário de condomínios clubes e torres isoladas – ruas vivas, movimentadas e consequentemente seguras, prioridade a pedestres, ciclistas e talvez scooters, metrô como transporte de massa, táxis. Quem quiser se aventurar a usar o carro particular, que não reclame do trânsito, da raridade de vagas de estacionamento ou, quem me dera, de um pedágio urbano que cobrasse os custos da caríssima infraestrutura rodoviária de quem realmente a utiliza e esgota.

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