‘Dólar perderá a função de moeda global’

O Estado de São Paulo

Divisa dos EUA deve perder poder de ser a reserva dos países; papel do FMI deve ser a nova moeda de reserva

FÁBIO ALVES

Em entrevista exclusiva à Agência Estado, Rickards diz que o dólar vai perder o seu papel de moeda de reserva mundial. É inevitável, diz o economista americano, de 60 anos, e com longa carreira no mercado financeiro, incluindo no currículo postos no Citibank e Royal Bank of Scotland. Quem assumirá esse papel será provavelmente o Direito Especial de Saque (SDR, na sigla em inglês), a moeda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No livro, Rickards diz que a primeira guerra cambial aconteceu nos anos de 1920 e 1930, levando aos conflitos militares encabeçados pela Alemanha nazista. A segunda guerra cambial foi travada na década de 1970, resultando na escalada inflacionária naquele período. A terceira guerra cambial foi alertada em 2010 pelo ministro da Fazenda brasileiro Guido Mantega e, segundo Rickards, é culpa do Federal Reserve americano. Veja, a seguir, trechos da entrevista.

O que fez o senhor escrever o livro?

Estava muito preocupado com os Estados Unidos, embora o assunto “guerra cambial” seja um tema global, que afeta a todos, pois se trata do sistema financeiro internacional. Eu pude observar com a história que guerras cambiais são altamente destrutivas porque, no fim, todo mundo perde. Qualquer ganho ou vantagem que advenha dela é estritamente temporário. Então, quis apontar os problemas e, assim talvez, influenciar o debate de políticas numa direção que nos levasse novamente a um dólar forte e também a uma economia americana forte. Além disso, outro objetivo foi o de dizer para as pessoas: bem, se vocês, cidadãos americanos médio, não veem uma mudança de políticas para um dólar forte, vocês podem se proteger comprando ouro.

Qual o próximo capítulo nessa guerra cambial?

No livro, traço quatro cenários que poderão acontecer no futuro no sistema financeiro internacional, aliás eu os chamo de os quatro cavaleiros do apocalipse do dólar.

O primeiro cenário seria um mundo de múltiplas moedas de reservas. Atualmente, o dólar detém cerca de 60% das reservas totais, caindo de um patamar de 70% do total em 2000. Nesse cenário, o dólar cairia para um nível de 40% das reservas no mundo e o euro avançaria do patamar atual de pouco mais de 30% para também 40%, além de outras moedas, como o franco suíço e até o yuan e o real, também detendo um papel mais relevante nas reservas mundiais. Muita gente acha que isso vai acontecer, mas a minha crítica a esse cenário é a falta de uma âncora.

O segundo cenário seria um maior papel para o Direito Especial de Saque (SDR), do FMI. Não é só o Fed e o BCE que dispõem de uma impressora para imprimir mais dinheiro quando eles precisam, o FMI também tem uma e pode imprimir SDR, que serviria então como uma moeda global, sem ter um lastro específico. A direção para atuação do FMI atualmente tem sido dada basicamente pelo G-20. Assim, o FMI seria então uma espécie de banco central mundial com o G-20 servindo como a diretoria desse BC. Daí, a próxima vez que tivéssemos uma fase aguda de crise financeira internacional, como aconteceu em 2008, o FMI poderia imprimir SDR.

O terceiro cenário seria o retorno ao padrão-ouro, mas seria um novo padrão-ouro, mais flexível e adaptado ao século 21. Ao longo da história, tivemos padrão-ouro com lastro de 20%, 40% em ouro. Há quem defenda um lastro de 100%.

O quarto cenário seria o caos, o qual eu acho mais provável porque, numa combinação de atitudes de negação ou de ‘wishful thinking’ pelos políticos, estamos chegando num ponto em que as pessoas estão perdendo muito rapidamente confiança no dinheiro, o que forçará líderes mundiais, incluindo o presidente dos EUA, a agir com medidas arbitrárias para impor ordem no sistema de novo. No fim, será uma corrida apertada entre as opções de um cenário com SDR ou com padrão-ouro, mas a alternativa SDR parece ser a favorita entre presidentes de bancos centrais e executivos de instituições financeiras

Então, teremos de chegar ao caos para que os líderes mundiais possam redesenhar o sistema financeiro internacional?

Sim e não. É, de fato, uma das formas para que o processo seja acelerado. Quando eu falo na opção do FMI, na realidade quero dizer que o FMI é um instrumento de consenso que está sendo formado no âmbito do G-20. O mundo está se movendo em direção ao SDR. Esse movimento pode ser acelerado se houver uma piora na crise e o FMI seja forçado a imprimir SDR rapidamente. Vemos algo como isso acontecendo na Europa hoje. Na última reunião do G-20 em Cannes houve discussões informais sobre o uso do SDR. Se houver uma corrida aos bancos europeus e se o BCE não intervir mais energicamente, poderemos ver emissão maior de SDR. Toda essa arquitetura está sendo montada pelo FMI, porque você não pode assumir o papel de moeda de reserva sem ter ativos que possam servir como instrumentos de investimento, isto é, os países precisam de um instrumento para aplicar suas reservas.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,dolar-perdera-a-funcao-de-moeda-global-,806171,0.htm

 

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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