Política nos tempos de cólera

Luis Nassif Online

por Luis Nassif

São tempos assustadores e também fascinantes.

Quando escrevi meu “Cabeças de Planilha”, desenvolvi as análises montando analogias com o que ocorreu no mundo e no Brasil das últimas três décadas do século 19 em diante. A história vai se repetindo de maneira impressionante.

Para entender ambos os movimentos:

A internacionalização do capital – iniciada no século 19 pelos Rotschild amparados pelo Banco da Inglaterra – permitiu a primeira articulação global, uma aventura fascinante controlada pelo grande capital. A chamada Pax Britânica nada mais era do que a coordenação de políticas nacionais pelo grande personagem que emerge no período – o grande capital – graças ao avanço da comunicação global, com a invenção do telégrafo e, depois, do telégrafo sem fio.

Promete-se muito: a paz mundial, o crescimento global (à medida que o capital transbordasse dos países centrais para os periféricos).

Essa articulação se dava em parceria com as burguesias nacionais, aliança apoiada em um conjunto de personagens que descrevo no livro. A saber:

O gestor de recursos, que faz a ligação umbilical entre o grande capital nacional e o internacional.

Economistas, que fornecem o discurso legitimador dessa aliança.

Partidos políticos que recebem o apoio financeiro e ideológico da aliança e fornecem, em troca, desregulamentação do capital e atrativos nas concessões públicas e/ou privatização.

A aliança incondicional com o establishment jornalístico. Não cheguei a aprofundar esse tema no livro. Para mim ficou mais claro analisando os desdobramentos da crise atual.

Gradativamente, a aliança vai se impondo sobre as políticas locais, os interesses do grande capital se sobrepondo aos interesses nacionais. Desenvolve-se um discurso de glorificação de um pretenso saber internacional em detrimento das “teorias da jabuticaba”, de qualquer tentativa de desenvolver novos modelos. Um país foge desse paradigma: os Estados Unidos.

Criam-se ferramentas financeiras cada vez mais audaciosas e formas cada vez mais imprudentes de rentabilizar o grande capital. Ele ganha vida própria, se desprega da atividade produtiva, torna-se disfuncional e começa a decair.

Essa desmanche se dá à medida que as promessas não se realizam e que surgem novas formas de comunicação de massa, colocando o velho modelo de articulação capital-economistas (ou financistas, como eram chamados no início do século 20)-velha mídia em xeque.

No século passado, o fim do ciclo começou na década de 1910, no bojo de um conjunto de fatores similares aos atuais:

Um grande processo de urbanização trazendo novas massas para o jogo político, especialmente na Europa.

A crise da articulação partidos políticos-mídia-intelectualidade cooptada.

A incapacidade do jogo político tradicional em superar e substituir a velha ordem financista.

Novas formas de comunicação, especialmente com a disseminação do rádio.

Há uma sucessão de crises, que se inicia com a mais grave – a Primeira Guerra Mundial – acabando com o sonho da Pax Britânica. Depois, a Revolução Russa, a grande crise de 1929 e, principalmente, seus desdobramentos nos anos seguintes: o acirramento da intolerância, o desmonte do que restava da velha ordem financista, ampliação do protecionismo.

No bojo da crise nascem três modelos visando substituir a velha ordem internacionalista: o soviético; o nacional-socialismo da Itália e Alemanha; e a New Deal de Roosevelt.

Roosevelt consegue consolidar um conjunto de novos valores recorrendo às novas tecnologias de comunicação que se espalhavam, especialmente o rádio. Seu legado de solidariedade transmite-se à nova ordem mundial que se organiza em torno da ONU e permanece pelas chamadas três décadas de ouro do capitalismo.

1972 marca oficialmente a volta do ciclo financista, após a decisão do governo Nixon de romper o padrão ouro, que vigorava desde o Tratado de Bretton Woods. Repete-se o modelo que tem seu apogeu nos anos 90, início de decadência em meados dos anos 2000 até explodir na grande crise de 2008.

E agora?

Nossas analogias terminam por aí. Daqui para a frente é possível identificar um conjunto de fatores-chave, mas não o desfecho.

De um lado, tem-se o fim da velha ordem.

Dia desses conversava com Jacques Schneider executivo bastante antenado com os tempos modernos. Dizia ele estar cada vez mais convencido de que o mundo é formado por percepções. Com todas as críticas que se possa fazer à velha mídia, cabia a ela o tom, a formação da percepção que, por sua vez, ajudava a coordenar movimentos na política e na opinião pública.

Com a Internet, esse forma de articulação acabou, não apenas aqui mas em todos os demais países.

Para o bem ou para o mal, tem-se esse complicador a mais. A desarticulação começa na base, a opinião pública nacional de todos os países questionando cada vez mais o modelo político em uma balbúrdia ainda descontrolada, sem novos mecanismos de coordenação.

Depois, modelos políticos disfuncionais devido ao longo período de açambarcamento de suas funções pelo mercado. Com a desarticulação dos mercados, incapacidade de se criar de imediato uma nova ordem que se sobreponha à enorme balbúrdia desses tempos de Internet e de ampliação da participação popular.

Fui bastante crítico do governo FHC. Mas no seu final, reconheci um diferencial extremamente importante, principalmente vendo o que ocorria na vizinha argentina: com todos os erros de política econômica, não permitiu o esgarçamento do tecido político. FHC criou uma tecnologia de governabilidade que foi bem utilizada por seus sucessores, Lula e Dilma.

Com o governo Lula e, agora, Dilma, aparentemente mantém-se essa solidez da ação política, embora cada vez mais bombardeada pela velha mídia, como um polvo agônico e descontrolado, sendo conduzido pela intolerância, em lugar de se constituir em um fator de racionalidade.

Há um processo diuturno de disseminação da intolerância, da alimentação da baixo auto-estima nacional, da criminalização da política, inversamente proporcional à capacidade de formular ideias alternativas, de criar uma oposição que se apresente à luta.

Esse clima é potencializado nas disputas pela Internet, no crescimento dos grupos de violência sem sentido – de skinheads a torcidas organizadas de futebol -, na retórica virulenta de comentaristas e analistas.

Há um mundo muito mais construtivo se desenvolvendo em vários planos: nos fóruns de saúde, educação, nas associações empresariais e nas conferências nacionais, nas ONGs de todos os cantos, em blogs dos mais diversificados. Mas o tom que prevalece, a percepção é da intolerância, do racha, do pega-pra-capar.

Daí a importância da criação de centros de mediação na Internet, locais que possam espelhar grupos de inteligência, organizações, pessoas empenhadas em construir, em pensar o novo, em celebrar a tolerância, em aceitar o contraditório. Enfim, em assumir plenamente a democracia.

Há uma grande luta pela frente, uma luta decisiva, não apenas para o Brasil, mas para a humanidade. Quem sairá vitorioso, a intolerância ou novos tempos, de inclusão e colaboração? a potencialização dos sentimentos mais doentios ou o avanço da solidariedade?

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/politica-nos-tempos-de-colera

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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