Reflexões por uma agenda com a China

Luis Nassif Online

Por A. Carlos

A respeito da China, permita-me apresentar duas sugestões:

1. Creio que a (re)leitura de Arrighi é fundamental.

A começar, segundo esse autor, pelo fato de que a China não se comporta como um império expansionista. Ocorreram exceções durante a longa história chinesa, mas a tendência sempre foi no sentido de promover a vizinhança pacífica, inclusive com ônus para a China.

Caso tivesse havido – de fato – um expansionismo chinês, a Rússia tzarista não teria chegado com tanta facilidade até Vladivostoque.

Usar o Tibete para questionar essa assertiva é forçar a barra. Há cerca de 700 anos o Tibete faz parte do Império do Meio, no mínimo como Estado tributário: os chineses já nascem sabendo que é do “teto do mundo” que as águas correm para o mar. Num país sempre às voltas com déficits hídricos, descurar-se do Tibete seria suicídio.

Segundo declarou inúmeras vezes o Dalai Lama, seu propósito não seria a independência do Tibete em relação à China, mas autonomia na administração interna do território. O problema é que, nos marcos de uma república, é impossível compartilhar o poder com uma teocracia.

É difícil aceitar que este possa ser o paradigma de qualquer país, sobretudo para nós que fomos condicionados pela lógica europeia de guerras de dominação, mas – dado que as fronteiras da China são muito mais lonjevas que qualquer fronteira da Europa ou das Américas – admitamos que o interesse chinês seja o de promover a paz, sem anexações de países vizinhos e sem conquistas no ultramar.

2. Em sua época, Niels Bohr propôs que tivéssemos ideias loucas. Ele acreditava que, quanto mais despropositada, maior a capacidade inovadora da ideia.

Formulemos uma ideia louca, dividida em cinco partes:

a) o Partido Comunista Chinês não desistiu de construir o socialismo na China. Na fase atual, que levará décadas, a tarefa é eliminar a “discrepância entre as crescentes necessidades materiais e culturais do povo e o atraso da produção social, ou seja, o atraso em educação, ciência, tecnologia e capital”, como se pode ler no introito da folha de rosto da página mantida pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China;

b) na década de 1960, com base na pregação do economista soviético Evcei Liberman, já era sabido que o desafio da economia soviética era a transição rumo à indústria de consumo e à adoção de métodos avançados de gestão, integrando a macro e a microeconomia: ou seja, conciliando o planejamento central com a iniciativa das autoridades e dos dirigentes das empresas locais. A propósito, na segunda metade daquela década, entre nós, Ignácio Rangel afirmava com toda clareza que o futuro da URSS dependia de sua capacidade em superar tal desafio.

Conhecendo profundamente a realidade soviética, os chineses – antes de terminarem os anos 60 – tinham certeza de que a causa da URSS estava perdida. Os tanques soviéticos em Praga e a abulia do PCUS diante da onda que varreu o mundo em 1968, sobretudo na Europa, apenas comprovavam essa certeza. Restava então o desafio do PCCh: – Como construir o socialismo em um país tão atrasado quanto a China?

c) nem toda a economia mercantil é capitalista, a exemplo do comprovado na China durante as dinastias Ming e Qing. Em 1992, afirmava Deng com todas as letras: “economia planificada não é sinônimo de socialismo, pois no capitalismo também existe plano, e economia de mercado não é sinônimo de capitalismo, já que no socialismo também existe mercado”.

Aliás, segundo uma das teses de Arrighi, o capitalismo só se tornou plenamente viável depois que se apossou do aparato estatal. Essa tese parece corroborada no momento atual, quando o capital financeiro se tornou dono da socialdemocracia europeia e o Goldman Sachs nomeia delegados seus para governar o Banco Central Europeu, a Grécia e a Itália.

Então, mutatis mutandis, seria possível desenvolver, na China, uma economia socialista de mercado moderna, capaz de comerciar com todos os países do mundo;

d) a abertura chinesa em relação ao Ocidente nada mais é (e ainda assim é muito mais) do que a ampliação da NPE (Novaya Ekonomicheskaya Politik), a Nova Política Econômica implantada por Lênin ao término da Guerra Civil e abandonada por Stalin, quando este optou pela coletivização forçada da economia camponesa na URSS.

Entrar em choque com os camponeses é algo que não passa pela cabeça dos dirigentes chineses, tanto mais porque tais camponeses são bons de briga e receberam décadas de formação política. Havia um caminho muito melhor: atrair um capitalismo maduro, com abundância de capitais para investir e escassas oportunidades seguras e rentáveis de aplicação em larga escala.

Segundo Deng, não importava a cor do gato, desde que ele caçasse ratos: podia ser o capital dos EUA, do Japão e, como ponto de partida, o capital da rica e numerosa diáspora chinesa espalhada pelo Sudeste da Ásia. O importante era colocar esse capital a serviço da construção do socialismo e Deng estava disposto a pagar o preço desse serviço;

e) segundo Marx e Engels, o socialismo deveria começar pelos países mais desenvolvidos à época. Não por acaso, os dois viveram em Londres até o fim de seus dias. Para Lênin, logo após a Revolução Russa, a Alemanha e a França seguiriam o mesmo caminho e mostrariam à atrasada União Soviética como construir o socialismo. Por conta de igual convicção, nas últimas décadas os EUA têm servido de atração para intelectuais de esquerda que, lá, pretendem contribuir para ou, ao menos, testemunhar o surgimento do socialismo.

 O Império do Meio, durante milênios, sempre foi a sociedade mais avançada do mundo. Adam Smith, ao escrever A Riqueza das Nações teve a China como paradigma. Mas aquele país não soube como reagir ao imperialismo ocidental e, inerme, foi vilipendiado durante dois séculos. Em 1949 retomou sua unidade política e cultural e, hoje, já é a segunda economia do mundo. O que ocorrerá se a China continuar a comportar-se como uma economia dinâmica, sob a liderança de um PCCh comprometido com a causa do socialismo? Por certo, espalhará socialismo como a Inglaterra, no início do século XIX, espalhou sementes de capitalismo pelo mundo.

   3. É fato que o Brasil entrou em rota do crescimento, no início deste século, sem dar-se plenamente conta disso. Surfamos na onda. Daria uma boa conversa de bar discutir sobre o papel da sorte no desempenho dos governantes: sob este ponto de vista, Lula deu de 10 a 0 em FHC.

Nosso problema com os EUA sempre foi o da insuficiência da demanda estadunidense em relação a nossos produtos.

De um lado, ao contrário da Inglaterra, o coeficiente de abertura da economia estadunidense sempre foi muito pequeno. De outro, a dotação de fatores dos EUA era parecida com a nossa, como o demonstram os casos do algodão, da carne, da laranja e da soja. Só conseguimos exportar minério de ferro quando as jazidas dos Grandes Lagos entraram em decadência. E, nos casos em que a dotação era diferente, os EUA sempre tiveram outra economia a privilegiar, como era o caso de Cuba com o açúcar, ou buscaram demandas complementares, a exemplo do café colombiano etc… Nunca fez parte, da política estadunidense, o fortalecimento de seu “grande irmão do Sul”, a despeito do empenho brasileiro em estreitar relações, desde a simpática visita de D. Pedro II aos EUA, em 1876.

Com tal relacionamento histórico com a economia hoje hegemônica, não é de estranhar que tenhamos vivido tantas décadas com uma crônica incapacidade de importar e com a necessidade premente de gerar superávits comerciais na Europa para cobrir os déficits em nossas relações com os EUA.

Também não causa espécie, por conta desses fatos, que sempre tenham ocorrido resistências de parte de nossas elites, sobretudo as rurais, contra o poderoso “irmão do Norte”. Veja-se a oposição à hegemonia dos EUA, desde a política sul-americana do Barão do Rio Branco ao torpedeamento da ALCA, passando pelo nacionalismo de Artur Bernardes a Getúlio. A maneira com que os estadunidenses trataram o México a a América Central nunca foi do agrado das lideranças brasileiras de velha cepa.

Mas, com relação à China, a complementação de fatores tem sido positiva. Nunca, desde que nossa Independência foi negociada com os Rothschild, contamos com tal abundância de reservas. Ser credor junto ao FMI ainda parece algo de sonho…

Lidar com a China não parece problema, desde que:

1. exista uma saudável diversificação de nossa pauta comercial;

2. os chineses tenham claro o que nós queremos para o Brasil e nós tenhamos esse querer expresso num planejamento de longo prazo. Seria trágico se os chineses percebessem que nossos líderes não amam o próprio país e estariam dispostos a trocar o futuro dele por vantagens particulares de curto prazo.

A propósito, essa é uma tarefa para a nossa Secretaria de Assuntos Estratégicos, apoiada pelos nossos “think tanks”, a exemplo das Brasilianas.org.

A paz mundial e a recusa a hegemonias são dois pontos fundamentais para a construção de uma agenda comum com os chineses. Daí, um aspecto muito valioso é o já comprovado compromisso brasileiro com a resolução pacífica de conflitos e a não-ingerência em assuntos internos de outros países.

 

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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