A China e o fim da hegemonia do dólar

Luis Nassif Online

Por Joao Carlos RB

Nassif, eu acho que já respondi à sua questão há um ou dois anos aqui neste fórum e muitos dos meus posts ao longo dos últimos 5 anos tangenciam esta questão. No entanto, é aconcelhável escrever uma resposta mais abrangente e sistêmica.

A estratégia da China é manter enquanto for possível os EUA comprando produtos industrializados chinese, para promover a industrialização naquele país. Para isso, o BC chinês compra alguns trilhões de títulos da dívida pública dos EUA para manter a paridade o dólar. O efeito é que é a China que está segurando o dólar, não mais o FED.

Esse fenômeno foi denominado Chimérica, mas não vai durar eternamente. Uma hora teria de acabar e agora que os EUA vão entrar e mais uma forte recessão (o período de recuperação em 2010-2011 foi apenas um “refresco”, as medidas do Obama não forma o suficiente para reverter totalmente o process, Krugman estava certo quando reclamou que precisava de um pacote econômico maior em 2009). Os EUA vão passar esta década (tem analista que acredita que uma recuperação não virá antes de 2017) andando para trás. Uma “década perdida” impossibilita a Chimérica de vez.

Portanto, o problema estratégico é como a China pretende sair do modelo Chimérica (porque pelo que tenho visto dos debates dos candidatos republicanos e pelo comportamento do Obama, ninguém nos EUA tem a mínima idéia de como cair fora da armadilha e estão perdidos sem uma estratégia de longo prazo, estão singrando ao rumo dos ventos).

Em primeiro lugar, para a China será necessário criar um mercado consumidor que mantenha a demanda por produtos chineses. Nesse caso, a China vai ter que fortalecer o mercado interno, porque com a Europa, EUA e Japão em crise com alto desemprego não sobrou um país rico propenso ao consumo, o governo chinês tem que buscar um mercado com população muito grande, mesmo que pobre. Esse mercado é a própria China. O governo chinês precisará adotar medidas que garantam o aumneto do salário real e o aumento do consumo, inclusive acelerando a construção de infraestrutura. Estranhamente, estas medidas já estão previstas no plano plurianual que o Partido Comunista Chinês elaborou em 2010. Veremos o governo da China acelerar estas medidas.

Segundo, manter uma montanha gigante de títulos públicos dos EUA perdeu o sentido. O problema é como torrá-la sem que a queda do valor destes títulos seja muito abrupta. A China já estava comprando ativos (principalmente na África) e commodites há algum tempo. Vai ter de acelerar o processo, inclusive utilizadno estes títulos para pagar mega-construções de infraestrutura.

O resultado é que o valor dos títulos e o valor do dólar desabam de vez. Vender os títulos significa deixar a moeda chinesa apreciar e terminar com a única força que ainda mantinha o valor do dólar no mercado internacional: as compras de títulos do PC chinês, que vai passar a ser vendedor.

A consequência de uma queda fortíssima do dólar é a paralisação do comércio internacional (cai ser um tipo de curto-circuito, ninguém vai querer vender porque teme que o valor pago em dólares perca valor), o que não interessa à China, porque a China precisa de matérias-primas. A solução é fazer acordos internacionais com países que exportem matérias-primas para a China usando moedas locais (como o acordo entre China-Brasil, lembram?) e buscar a criação de uma moeda de trocas internacional (daí a China querer que se coloque o Real como componente da cesta do FMI, é matar dois coelhos com uma cjadada só, cumpre os dois obejtivos de baratear as importações de matérias-primas para a China e fortalece uma moeda de troca para manter o comércio internacional quando o dólar solapar).

Nesse cenário, o dólar é substituído como moeda de troca e de reserva internacionais. O fim da hegemonia do dólar também é o fim da hegemonia dos EUA. É preciso ter um novo modelo de hegemonia para evitar conflitos internacionais futuros. Daí o BRIC, que era uma hipótese de trabalho de um financista, ter virado o BRICS (com “South Africa” como membro, a contragosto do financista que havia criado o termo…), que é uma entidade internacional concreta cuja estratégia durante esta crise da Europa é aumentar a sua influência geopolítica.

[observem que uma preparação necessária nesse cenário é que os bancos centrais comprem ouro para substituir suas reservas em dólar antes que a crise exploda…]

O que tenho observado ao longo de 2010 é que já houve o chamado “paradigm shift”. Já estamos nesse novo modelo de hegemonia, só falta todo mundo entender isso. A crise do aumento do teto da dívida dos EUA, a crise na Europa, são as dores do parto do nascimento de um mundo novo. A Europa teve que perdir ajuda aos BRICS, porque dos EUA não viria. Tiveram que ouvir que só viria ajuda com aumento de poder dos BRICS. Os governos europeus ainda estão digerindo o “não”, mas muitos desses governos estão caindo (Itália) e o que resta não vai se reeleger (Inglaterra, França, Alemanha). Os novos governos (que não serão este governos “técnicos” da Itália e da Grécia, desemprego vai aumentar e eles vão cair também) da Europa vão começar lá pelo fim de 2012 a buscar um acordo com o BRICS, sendo forçados a aceitar o surgimento da hegemonia do grupo.

O que todo mundo parece estar esquecendo, com esta crise na Europa, é que a crise do teto da dívida não acabou. Agora no dia 23 de novembro o Supercomitê do Congresso dos EUA tem que dizer como vai ser feito o corte. E não foi possível qualquer acordo até agora entre os Democratas e Republicanos. Portanto, não vai haver qualquer corte no orçamento e o corte linear é impossível de ser feito.A crise do teto da dívida retornará rapidamente, porque a dívida bate no teto de novo agora no final de dezembro. Em janeiro de 2012 haverá de novo a ameaça de default da dívida  pública dos EUA e o FED não me parece propenso a adotar uma solução (hiper)inflacionária (O Ben já foi ameaçado de prisão por um dos candidatos republicanos a candidato à presidência dos EUA se ele subir no helicóptero e começar a jogar dinheiro do céu…).

Daí a verdadeira questão, Nassif. O que fazer com o calote dos EUA que se aproxima? A China perde os escrúpulos e torra o que restar do US$ 1 trilhão que possui na mesma hora.

[você percebeu que o BACEN aumentou as reservas em Euro, diminuindo as reservas em dólar, ao longo de 2011?]

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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