Violência e hipocrisia em Wall Street

Vamos Combinar

Paulo Moreira Leite

A desocupação do parque Zucotti, em Manhattan, seria um escândalo em qualquer parte do mundo. A operação foi realizada de madrugada, jornalistas foram mantidos à distancia, a violencia produziu feridos que chegaram sangrando à delegacia.

Advogados com uma longa militancia em direitos humanos disseram que raras vezes assistiram a tamanho esforço para limitar o controle de informações nos Estados Unidos.

Imagine se isso tivesse acontecido em frente ao Palácio Rosado, onde trabalha a presidente Cristina Kirschner, da Argentina. Ou na Venezuela de Hugo Chávez. Ou no vão do Masp…

A violência contra uma manifestação essencialmente pacífica pode dar um novo fôlego para um movimento que começava a perder oxigênio. Essa é a esperança de boa parte dos militantes, que preparam-se para voltar às ruas nos dias de hoje.
Apesar disso, não há como negar certos sinais de esvaziamento. Um deles eram incidentes no acampamento, que era procurado por desocupados e até por cidadãos procurados pela polícia. Dias antes da ação policial, grupo de comerciantes do bairro foi à prefeitura de Nova York exigir que os manifestantes fossem retirados de lá.

Em outros pontos dos EUA, ocorreram mortes.

Por que? Não é que faltem bons motivos para se protestar. O capital financeiro escravizou a economia americana e, como não se cansa de recordar o Premio Nobel Joseph Stiglitz, tornou-se um obstáculo a uma recuperação vigorosa da economia. Isso porque embolsa uma remuneração incompatível com sua retribuição para a sociedade. O problema não é pagar bonus demais. É que essa renda não tem relação com seu papel social, explica o professor: autoregulamentado, o sistema financeiro cobra muito da população e retribui pouco. Não cria riqueza. Não é moralismo. É falta de eficiencia, diz Stiglitz.
Mas a experiencia ensina que não basta ter razão para vencer um conflito político. É preciso força. Numa sociedade como a americana, onde o sistema político pode ser alugado de dois em dois anos pelo capital privado, aquele que sustenta o Tea Party e paralisou toda reforma mais ambiciosa prometida pelo  governo Obama, isso implica em conquistar o apoio de amplas parcelas da população. Foi assim que ocorreu no movimento pelos direitos civis, a última grande conquista social da população dos Estados Unidos.

Logo nas primeiras semanas, o Premio Nobel Paul Krugmann lembrou que o movimento de Wall Street tinha razão no que criticava mas era omisso na hora de dizer o que pretendia. Era preciso, lembrou, assumir uma reivindicação concreta, capaz de transformar o protesto num movimento popular. Uma idéia possível, disse Krugman, era levar em frente a proposta de anistia aos cidadãos que foram esmagados por hipotecas imobiliárias, contraíram dividas impagáveis e terão de passar as proximas décadas repassando seus rendimentos familiares para os bancos — pois tem uma dívida muitas vezes superior ao valor real dos bens que adquiriram. Muitos deles já entregaram as casas e mesmo assim continuam a pagar as dívidas.
É uma idéia razoável por tres razões:

a) transfere parte do prejuízo pelas operações com derivativos aos bancos, que foram seus arquitetos;

b) permite que pessoas que não podem ir às compras voltem a consumir, reanimando a economia;

c) retira o debate do plano ideológico para transformá-lo numa discussão concreta.
Essa é a questão. Embora tenha razão em seu descontentamento, e aponte para problemas que estão longe de serem resolvidos, os protestos contra Wall Street irão se transformar numa lembrança bonita do outono de 2011 se não forem capazes de chegar ao cidadão comum.

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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