Onde anda a esquerda americana?

O Estado de São Paulo

Para vencer os conservadores em 2012, será vital restabelecer o contato com o americano médio e mostrar como os EUA serão um país melhor

É PROFESSOR DE HISTÓRIA EM GEORGETOWN, COEDITOR DA REVISTA DISSENT, MICHAEL, KAZIN, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE HISTÓRIA EM GEORGETOWN, COEDITOR DA REVISTA DISSENT, MICHAEL, KAZIN, THE NEW YORK TIMES – O Estado de S.Paulo

Às vezes, deveríamos nos preocupar com a ausência de novidades. As desgraças econômicas dos Estados Unidos não pararam, o desemprego continua elevado e as vendas internas estão estagnadas ou despencando.

O abismo entre os americanos mais ricos e seus compatriotas é maior do que o que era desde os anos 20.

Mas, salvo pelas manifestações e pelas enérgicas campanhas para a realização de plebiscitos revogatórios que tumultuaram o Estado de Wisconsin este ano, sindicalistas e outros violentos críticos do poder das grandes corporações e dos cortes do governo não conseguiram organizar um movimento sério contra as pessoas e as políticas que empurraram os EUA para a recessão.

Em vez disso, a rebelião do Tea Party – liderada por veteranos ativistas conservadores e financiada por bilionários – levou os políticos de ambos os partidos a reduzir drasticamente os gastos federais e a derrotar as propostas para taxar os ricos e fazer com que os financistas se responsabilizem por seus crimes.

Em parte como consequência deste cenário, o mandato de Barack Obama começa a se parecer menos como o segundo mandato de Franklin Delano Roosevelt e mais como uma reedição de Jimmy Carter – embora na semana passada o presidente tenha lembrado um pouco seu ex-colega rooseveltiano ao propor que os milionários “paguem sua justa parcela de impostos, ou teremos de pedir aos cidadãos mais velhos que aumentem sua contribuição ao Medicare”.

Como explicar o relativo silêncio da esquerda? Talvez o que é realmente fundamental no vigor de um movimento sejam seus anos de gestação. Na década de 30, o crescimento dos sindicatos e a popularidade das reivindicações pela redistribuição da riqueza e o estabelecimento da “democracia industrial” não constituíram simplesmente a resposta ao colapso econômico. Na realidade, os sindicatos só floresceram na metade da década, quando já ocorria modesta recuperação. O triunfo liberal dos anos 30 estava arraigado em décadas de eloquente oratória e organização de uma variedade de reformadores e radicais contra os males do “monopólio” e dos “grandes investidores”.

Do mesmo modo, a atual direita populista originou-se entre os eloquentes porta-vozes e as instituições amplamente financiadas que surgiram nos anos 70, muito antes do início da crise atual. Os dois movimentos discordavam praticamente a respeito de tudo, mas cada um tinha promotores agressivos que, respaldados por poderosas forças sociais, estabeleceram seus pontos de vista como a sabedoria convencional de uma era.

As sementes da esquerda dos anos 30 foram plantadas na Idade do Ouro por figuras como o jornalista Henry George. Em 1886, George, autor de um best-seller que condenava a especulação fundiária, concorreu ao cargo de prefeito de Nova York como candidato do novo Union Labour Party. Ele atraiu inúmeros seguidores com discursos que acusavam as autoridades da máquina da Tammany Hall (sociedade democrata que manipulava a política municipal) de se empanturrarem com o dinheiro dos subornos e com os privilégios especiais enquanto “há hordas de cidadãos que vivem na miséria e no vício causado pela miséria, em condições que deixariam um bárbaro assombrado”.

George levou uma mensagem de esperança a seus ouvintes: “Estamos construindo um movimento pela abolição da escravidão industrial, e o que fazemos deste lado do oceano enviará seus impulsos por terra e por mar, e fará com que todos os homens tenham a coragem de pensar e de agir”. Concorrendo contra candidatos dos dois principais partidos e com a oposição de quase todos os empregadores locais e da Igreja, George provavelmente teria sido eleito, se Theodore Roosevelt, então com 28 anos, o republicano que foi o terceiro mais votado, não tivesse dividido o voto anti-Tammany.

Apesar da derrota de George, o movimento em favor dos trabalhadores, contra as grandes corporações que se uniu ao seu redor e outros continuaram crescendo. Com o aproximar-se da virada do século, os assalariados organizaram enormes greves para o reconhecimento dos sindicatos nas ferrovias da nação, nas minas de carvão e nas usinas têxteis.

Rebelião. Nos anos 1890, uma rebelião nascida principalmente nas áreas rurais produziu o People’s Party, também conhecido como Populista, que rapidamente conseguiu o controle de vários Estados e elegeu 22 congressistas. O partido logo acabou, mas não antes de os democratas, liderados por William Jennings Bryan, adotarem partes do seu programa – o imposto de renda progressivo, uma moeda flexível e o financiamento para a organização dos trabalhadores.

No início do século 20, uma coalizão progressista mais ampla, incluindo trabalhadores imigrantes, reformistas da classe média urbana, jornalistas de tabloides e os Social Gospelers (membros do movimento religioso pela reforma social) estabeleceram um novo senso comum sobre a necessidade de um governo que freasse o poder das grandes empresas e estabelecesse um estado previdenciário limitado. O livre mercado ilimitado e a ética do individualismo, argumentavam eles haviam deixado muitos americanos à mercê do que Theodore Roosevelt chamava de “malfeitores com grandes riquezas”. Como Jane Adams disse: “O bem que garantimos para nós é precário e incerto, flutua no ar, até que seja garantido a todos e incorporado na nossa vida comum”.

Durante os anos do boom da década de 20, os conservadores criticaram violentamente esta máxima e conquistaram o controle do governo federal.

“O negócio fundamental do povo americano são os negócios”, afirmou o presidente Calvin Coolidge. Mas seu triunfo foi de curta duração, tanto em termos ideológicos quanto eleitorais. Quando Franklin D. Roosevelt foi eleito com uma votação esmagadora em 1932, a maioria dos americanos já se preparava para aceitar a justificativa econômica e moral que os progressistas defendiam desde a época de Henry George.

Will Rogers, humorista e leal democrata, expressou isso em termos rurais: “Toda a forragem está indo para um coxo só e o gado do outro lado do estábulo não recebe nada. Nós conseguimos, mas não sabemos dividi-la”. Os sindicalistas do Congresso das Organizações da Indústria insistiram no seu argumento, bem como os demagogos que defendiam a ideia de espremer o dinheiro dos ricos, como Huey Long e o reverendo Charles Coughlin. Os arquitetos da seguridade social, do salário mínimo e de outras medidas que foram marcos históricos do New Deal fizeram o mesmo.

Depois de anos de preparação, o liberalismo do Estado do bem-estar finalmente se tornava um credo de todo o país. Em 1939, John L. Lewis, o combativo líder trabalhista, declarou: “Os milhões de trabalhadores organizados reunidos na CIO são a principal força do movimento progressista de operários, camponeses, e pequenos proprietários de empresas e de todos os outros elementos liberais da comunidade”. Com estas forças ao seu lado, Franklin D. Roosevelt, munido de sólida formação política, tornou-se um grande presidente.

Mas o significado de liberalismo foi se modificando gradativamente. Os 25 anos de expansão e de baixo desemprego que se seguiram à 2.ª Guerra calaram compreensivelmente as reivindicações de justiça social da esquerda. Os liberais estavam preocupados com os direitos das minorias e das mulheres mais do que com a persistente desigualdade da distribuição da riqueza. Ao mesmo tempo, os conservadores começaram a moldar seu movimento com base no repúdio do “socialismo sub-reptício” e na sua crescente convicção de que o governo federal estava esquecido ou se mostrava hostil aos interesses e os valores dos brancos de classe média.

No final dos anos 70, a base da direita foi representada por um indivíduo agressivo, um empresário ativista sempre com um charuto entre os dentes, chamado Howard Jarvis. Ele, que lutara pelas causas conservadores desde a campanha de Herbert Hoover em 1932, candidatara-se ao cargo em várias ocasiões, mas, como Henry George, nunca tinha sido eleito. Impedido pelas urnas, ele se tornou um organizador do movimento contra os impostos e tornou extremamente difícil a aprovação de qualquer medida para elevá-los. Naquele ano, a Proposta 13 recebeu quase dois terços dos votos, e desde então os conservadores insistem em sua argumentação contra a adoção de impostos.

Assim como a esquerda outrora podia atribuir os problemas da nação a grandes empresários insensíveis, a direita aperfeiçoava uma crítica direta à ingerência do governo que pegava o dinheiro dos americano em troca de pouco ou nada de útil.

Um dos motivos da expansão da direita foi o fato de que, em sua maioria, os que ocuparam a presidência, de meados de 1960 a 2008 – democratas ou republicanos – não cumpriram suas principais promessas. Lyndon Johnson não derrotou os vietcongues, nem aboliu a pobreza; Jimmy Carter não conteve a inflação, nem libertou os reféns no Irã; George W. Bush não cumpriu sua missão no Iraque, nem controlou o déficit.

Do mesmo modo que a esquerda no início do século 20, os conservadores criaram um conjunto impressionante de instituições para desenvolver e disseminar suas ideias. Suas comissões de especialistas, ordens de advogados, lobistas, conversas ao pé do rádio e os manifestos que se tornaram best-sellers prepararam, formaram e financiaram duas gerações de escritores e organizadores. As universidades cristãs conservadoras, protestantes e católicas, incutem nos estudantes uma visão de mundo mais coerente do que escolas mais prestigiosas dirigidas por liberais.

Mobilização. Mais recentemente, os conservadores mobilizaram veículos de comunicação como a Fox News e as páginas editoriais do Wall Street Journal para a sua causa.

O Tea Party é apenas a versão mais recente de um movimento que vem evoluindo há mais de meio século, mais tempo do que qualquer iniciativa da esquerda liberal ou radical que lhe sirva de comparação.

Os conservadores raramente comemoraram uma vitória esmagadora do gênero da Proposição 13, mas seu argumento sobre os males da ingerência do Estado em geral predomina. A incapacidade de Obama de resolver os problemas econômico da nação só fortaleceu a vantagem ideológica da direita.

Se os ativistas da esquerda pretenderem modificar a realidade, terão de cogitar uma maneira de redefinir o antigo ideal da justiça econômica para a era da internet e para a constante mobilidade geográfica.

Durante as últimas eleições, muito esperavam que a organização que favoreceu a campanha presidencial de Obama fizesse exatamente isso. Mas, desde que assumiu a presidência, Obama muito raramente fez um esforço para conduzir a conversação pública nesta direção.

Ao contrário, a esquerda precisa entender que quando os progressistas tiveram sucesso no passado, quer organizando sindicatos quer lutando pela igualdade de direitos, raramente apostaram nos políticos. Eles criaram suas próprias instituições – sindicatos, grupos de mulheres, centros comunitários e de imigrantes e uma imprensa inteligente contrária ao autoritarismo – nas quais eles falavam em seu nome e pelos interesses dos assalariados americanos.

Hoje, estas instituições estão ausentes ou enfraquecidas. Com os sindicatos em dificuldades ou em declínio, os trabalhadores de todas as raças carecem de um veículo forte para se articular e lutar pela visão de uma sociedade mais igualitária.

Universidades, sites e ONGs liberais atendem na maior parte a uma classe média profissional e são mais eficientes na promoção de causas sociais como a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a proteção do meio ambiente do que em exigir milhões de novos empregos que paguem um salário que permita viver.

Será vital restabelecer o contato com os americanos médios não apenas para derrotar os conservadores em 2012 e em eleições futuras. Se isso não acontecer, a esquerda continuará incapaz de afirmar clara e apaixonadamente como poderá ser um país melhor e o que será preciso para chegar lá. Parafraseando o mártir trabalhista Joe Hill, a esquerda deve parar de lamentar seu passado recente e começar a se organizar para mudar o futuro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,onde-anda-a-esquerda-americana,780174,0.htm

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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