O problema da Raposo Tavares

O Estado de S.Paulo

A concessionária CCR enviou ao governo estadual proposta de duplicação do trecho de 20 quilômetros da Rodovia Raposo Tavares entre São Paulo e Cotia. Pelo projeto, a estrada terá seis faixas em cada pista – o dobro do número atual – e um monotrilho suspenso no canteiro central, para atender o transporte público. Para a integração da via com a Marginal do Pinheiros são previstos uma passagem de nível e um túnel, o que resolveria um dos principais gargalos de trânsito na região do Butantã. A CCR propõe investir R$ 1,5 bilhão nas obras de duplicação e receber em troca o aumento de dez anos do prazo de concessão da rodovia, que termina em 2023. Pedágio seria cobrado conforme a distância percorrida.

A necessidade de melhorar o trânsito e o transporte público no trecho entre a capital e Cotia é inquestionável. A população de Cotia cresceu, na última década, 13,49%, acima da média nacional (12,3%). Passou de 148.987 habitantes, em 2000, para 201.023, no ano passado. Desse total, mais de 50 mil se concentram nos condomínios da Granja Viana, região responsável pelo grande aumento do trânsito nos 20 quilômetros da Raposo Tavares até São Paulo.

A região se transformou, nos últimos anos, na bola da vez do mercado imobiliário. Além dos sofisticados condomínios verticais, a construção de moradias populares em Cotia e Carapicuíba está sendo promovida pelo Programa Minha Casa, Minha Vida. E pelo menos sete grandes centros comerciais estão em construção na região, a maioria deles colada às margens da Raposo.

Dados do Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER) mostram que o número de veículos que percorrem diariamente o trecho Granja Viana-Capital aumentou 70% nos últimos cinco anos, passando de 108 mil para 182 mil. Entre 7 e 9 horas da manhã, somente a Avenida São Camilo, uma das principais vias da Granja Viana, despeja mais de 2 mil carros na acanhada Raposo Tavares.

O plano da CCR atende, portanto, aos interesses de boa parte dos moradores da região que trabalham em São Paulo, mas optaram por um bairro tranquilo para morar. É uma proposta que combina melhoria no transporte público – com o monotrilho – e maior facilidade para o trânsito de automóveis e ônibus. E o projeto do Ferroanel, que parece prestes a ser executado, também tiraria um grande número de caminhões da Raposo.

Infelizmente, é enorme a distância entre esse projeto e a realidade. Nos últimos anos, foi autorizada a construção de grandes empreendimentos às margens da rodovia. Na região do Butantã, na capital, condomínios verticais estão sendo erguidos a poucos metros das pistas; outros foram inaugurados recentemente, como um conjunto de seis torres ao lado do Shopping Center Raposo. Na área da Granja Viana, 800 escritórios deverão ser entregues até 2012 e um shopping abriu as portas em novembro. Tudo colado à rodovia.

Qual o custo financeiro e político de uma intervenção como a daquele projeto, que chega tardiamente e só pode ser executada se houver desapropriação do que acabou de ser construído ou ainda está em construção? As prefeituras da região e o governo estadual têm de encontrar uma solução para o grande problema de mobilidade ali existente.

Os investimentos deveriam se voltar, prioritariamente, para o transporte de massa. A prefeitura de Cotia e o Metrô desenvolveram o projeto de um sistema de monotrilho, que seguiria pela Raposo Tavares, começando na Estação Butantã, da Linha Amarela do Metrô, até o Terminal Rodoviário de Cotia, localizado dez quilômetros depois da Granja Viana. O custo da obra foi avaliado em R$ 2,25 bilhões.

Ainda que houvesse áreas livres para a construção de novas faixas na rodovia, descolada de um grande projeto de transporte de massa e de carga, a obra proposta pela CCR, apesar de alguns aspectos positivos, teria vida útil muito curta. O que a região metropolitana precisa é de transporte público capaz de estimular as pessoas a deixar seus veículos em casa.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-problema-da-raposo-tavares,772857,0.htm

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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