2011: o ano em que tudo começou

Outras Palavras

Voltou-se a falar em política radical. Isso não significa que devamos voltar ao socialismo real, tão fracassado quanto capitalismo real

Por Bruno Cava, do Outras Palavras e Universidade Nômade

O muro de Berlim caiu em 1989. Nos anos seguintes, o socialismo real desabou como um castelo de cartas. Colapsou em poucas semanas o império que vencera quase sozinho o Terceiro Reich e assombrara o planeta com o Sputnik. Menos do que por conspiração imperialista, pela própria incapacidade do regime socialista. As emendas de Gorbatchov haviam saído piores que o soneto. Nas décadas anteriores, os insatisfeitos atravessaram en masse a cortina de ferro. Até que um dia eram tantos os descontentes que os muros perderam a sustentação e os ditadores caíram um após o outro. A esquerda não adianta se iludir: as pessoas desertaram dos países do antigo bloco soviético. Migraram voluntariamente para o capitalismo de mercado. Diante dos blocos cinzentos de apartamentos em Tirana e Bratislava e do tédio do realismo soviético; o ocidente com suas BMW, Disneylândias, Big Macs e Michael Jackson só poderia mesmo parecer uma utopia maravilhosa.

Assim como vazaram da URSS e seus satélites, as pessoas desistiram dos partidos socialistas pelo mundo, convertidos em curiosidades anacrônicas. E foi tudo por água abaixo em 1991. Aí veio a tese do fim da história. A luta de classe acabou. Marx estava certo, mas perdeu. Não cabem mais grandes narrativas históricas. Em gabinetes e coquetéis, os capitalistas celebraram a vitória na Guerra Fria e o triunfo de seu modo de produção. Do outro lado, a ressaca das forças de esquerda. Rendida à ideologia, paulatinamente se acomodou no insosso discurso de direitos humanos, numa militância descafeinada “contra todas as formas de preconceito”. Os partidos de esquerda tucanaram a prática.

Mas por trás do fim das narrativas, se consolidou uma única grande história. Se não estamos no melhor dos mundos na política, estaríamos no menos pior. Isto é, democracias constitucionais representativas, baseadas na propriedade privada e na divisão social do trabalho, numa ordem global partilhada entre a monarquia imperial dos EUA, a aristocracia financista-empresarial e a plebe explorada.

O totalitarismo passou a ser o outro do capitalismo. Todo o século 20 achatado entre a humanidade-que-prevaleceu e a ditadura das ideologias. Constituir novos sujeitos revolucionários? Seria repetir os erros do século. Porque, não tem jeito, o poder do povo acaba usurpado pela vanguarda revolucionária e então toda a revolução se perde em nome de quem a enuncia. Não arrisquemos o pouco conquistado, vamos com calma, com reformas graduais aqui e ali, na medida do possível. A divergência aceitável passou a ser entre neoliberais e social-democratas. Os primeiros, convictos defensores da aristocracia do “mercado livre”. Os segundos, a favor de reformas graduais e pontuais, por um capitalismo mais humano ou sustentável. A palavra “revolução” passou a atestar a ingenuidade ou falta de bom senso do interlocutor. Não é pra levar a sério, em pleno raiar do século 21, quem ainda acredita em revolução, comunismo, política radical… Somente em 2001, na esteira das marchas anticapitalistas de Seattle e Gênova, o filósofo Antonio Negri e o professor Michael Hardt viriam a publicar um manifesto revolucionário à altura dos desafios, com o livro Império, perturbando o consenso.

Nessa terra arrasada que foi a década de 1990, se formou a minha não-geração. Ao som do Nirvana, Plebe Rude, Garotos Podres, Pearl Jam, fragmentada e desorientada como num filme de Quentin Tarantino, entre partidos esquerdistas falidos e a rendição cabal à classe dominante presidida por Collor e FHC; muitos afundaram no niilismo eclético do pós-tudo. Pior do que o pavor do holocausto nuclear e da AIDS dos 1980, a completa ausência de perspectiva em meio à banalidade do showbiz, ao politicamente correto reformista e ao neoliberalismo.

Kurt Cobain se matou aos 27 com um tiro na cara, enquanto Ewan MacGregor mergulhava nos esgotos lisérgicos dessa geração ausente, em Transpotting. Não poderia ser mais oportuno o gran finale, quando os Estados Unidos comeram o pão que seu governo amassou durante o século. O Centro do Comércio Mundial (WTC) estremeceu e ruiu, abatido pelo Frankenstein que ele próprio despertou e alimentou: a Al Qaeda de Osama bin Laden. Naquele 11 de setembro, um sentimento ambíguo de horror e júbilo percorreu a não-geração em todo o planeta. Ressentida, foi ao delírio sádico com as imagens hollywoodianas ao vivo, excitação mais intensa do que assistir à Tropa de Elite.

Portanto, não dá pra passar em branco a singularidade deste ano. Se a geração somente se constitui na sua luta afirmativa por uma vida menos ordinária, começamos. O século acabou em 2001, mas recomeçou em 2011. Só interessa o sujeito quando em atividade: subjetividade. A resistência já é em si um mundo, que se autovaloriza e autolegitima. Erra feio quem não enxerga os pontos de convergência, o comum de primavera árabe, Túnis e Tahrir, a onda 2.0 pela nova Europa, Itália, Grécia, Inglaterra, Espanha, entre a afirmação de direitos de indígenas e negros por toda a América do Sul, as ocupações de Wisconsin, o software livre, o Wikileaks, zapatistas, autonomistas, pós-operaístas, comunistas, hackers, anonymous e anarquistas, o movimento pela cultura digital e tantas e tantas coisas que estão rolando e só não vê quem não quer ver.  Nisso não importa a idade, porque juventude e velhice não podem ser conceitos biológicos. A grande imprensa finge que não, mas o movimento da geração é local no choque de forças, mas global na proliferação de afetos ativos, na formação de redes.

A história não acabou. A revolução não saiu da moda. Quem saiu da moda foi a ideologia dos 1990. Confrontada com os acontecimentos, não está conseguindo se sustentar. Hoje, os neoliberais têm dificuldade para socializar a crise, distribuindo as perdas. Se todos passaram a falar em “capitalismo”, é porque as coisas não vão bem para a ordem vigente. A aristocracia de mercado apenas agravou a crise. Os sábios de olhos azuis faliram de vez a economia mundial. No território dos estados-nações ricos, generalizam-se a pobreza, a violência policial, o racismo civil. 1% da população americana detém 80% da riqueza. Não há mais sinal de estado de bem-estar em boa parte da Europa, mas warfare state, fundado no controle social e na ideologia da guerra. A grande imprensa não consegue esconder o mal estar, ao mesmo tempo que novas mídias e redes sociais lhe arrancam a opinião pública. Voltou-se a falar sem pudor em política radical.  Isto não significa que devamos voltar às apostas do socialismo real, tão fracassado quanto o capitalismo real.

O esquerdismo também continua fora da moda. Porque não possui leitura do movimento generacional. Como sempre, desde o socialismo utópico e dos esquerdistas contra Lênin, se recusa a viver o seu tempo histórico. Não consegue se identificar com as lutas reais, nem sabe como funcionam. Para o esquerdismo, as resistências, marchas e novos sujeitos não seriam anticapitalistas o suficiente. Pretendem uma Antígona de negação abstrata. Curioso como os mais “revolucionários” serão os últimos a percebê-la. Talvez quando se derem conta a revolução já terá passado. Não perceberam que a contestação radical não parte contra o Sistema. Não se formula assim, não circula assim entre as pessoas e movimentos, sequer depende de uma concepção clara do que seja o Sistema. Ninguém vai se revoltar porque alguém o convenceu que um outro sistema seria mais interessante ou produtivo ou igualitário. Essa conscientização é simplória.

A geração, os jovens, os precários, os pobres, os oprimidos, os humilhados, os movimentos insurgentes e as multidões queer já lutam o tempo todo e se revoltam todos os dias. Constituem eles mesmos os horizontes da geração, suas narrativas e organizações políticas. São múltiplos focos, pautas e frentes das lutas reais que, intensificados em sinergia, aos poucos vão revolucionando, por dentro e para além, o sistema político-econômico, ou seja, a cultura de seu tempo.

Em suma, nem capitalismo real, nem socialismo real. Querem outra coisa. O quê? Vá e veja!

http://www.outraspalavras.net/2011/09/12/2011-o-ano-em-que-tudo-comecou/

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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