Retirada de grades da Praça Tiradentes e retorno de mendigos reacendem debate sobre estética, lazer e segurança

O Globo

Athos Moura (athos.moura@oglobo.com.br) e Carla Rocha (rocha@oglobo.com.br)

Moradores de rua dormem na Praça Tiradentes, que perdeu grades no último sábado, reacendendo o debate sobre eficácia da medida (Foto: Fernando Quevedo / Agência O Globo)

RIO – O debate será em praça pública: apenas três dias depois da retirada das grades da Praça Tiradentes, mendigos voltaram a ocupá-la à noite, o que reacende a questão sobre as consequências que poderia ter uma ampla remoção de gradis de espaços públicos, já cogitada pelo prefeito Eduardo Paes. A instalação ou retirada das grades é uma discussão que envolve desde conceitos de estética até temas sociais e urbanos como a importância do acesso livre às áreas públicas para o lazer. Sem falar na questão da segurança.

A cena flagrada na madrugada de terça-feira mostra que o problema é desafiador. Apesar da nova iluminação e de um carro com dois guardas municipais fazer a ronda nas imediações, a Praça Tiradentes voltou à velha condição de dormitório público. Três mendigos, aparentemente alcoolizados, dormiam amontoados. Porém, só foram convidados a sair dali quando os agentes municipais perceberam a presença de uma equipe do GLOBO. Os guardas se justificaram dizendo que os moradores de rua acabam voltando. O trio atravessou a praça e conseguiu um cantinho no entorno do Teatro João Caetano, onde duas Por lei, guardas municipais não podem retirar a população de rua das praças. Eles só podem agir se a pessoa estiver deitada no banco.

Entusiasta do projeto de revitalização da Praça Tiradentes – inclusive da retirada das grades -, o presidente do IAB-RJ, Sérgio Magalhães, pondera que cada caso é um caso.

– As grades são inertes, não têm conteúdo. Nós é que oferecemos uma simbologia para elas, que pode ser de exclusão ou de proteção. Não vejo o que o Passeio Público, por exemplo, perdeu pelo fato de ter grade. Há alguns anos, uma grade substituiu um muro entre o Jardim Botânico e a Rua Pacheco Leão e ficou elegantíssimo. Já a Praça Santos Dumont, na Gávea, não tem grades, o que me parece acertado. Imagine, por exemplo, a Praça Quinze gradeada: não ficaria bom.

Para o presidente da Associação dos Proprietários de Prédios no Leblon e presidente do Conselho Comunitário de Segurança do 23º BPM (Leblon), Augusto Boisson, abolir as grades é fazer poesia fora de época:

– Nós vivemos no Rio de Janeiro, não na Europa. Se não tivesse sido gradeado, nós não teríamos hoje o Jardim de Alah, que teria sido destruído pelo vandalismo. Um caso totalmente diferente é a Praça Antero de Quental. É a única grande praça do Leblon, uma pérola que os próprios moradores ajudam a cuidar. Nesse caso, somos radicalmente contra o gradeamento.

O arquiteto Miguel Pinto Guimarães é a favor da abertura:

– Tem que controlar com iluminação e guarda municipal. Segurança é o dever do poder público. Os espaços têm que estar abertos para a cidade.

População de rua no Centro e no Largo do Machado

A equipe do GLOBO percorreu outras áreas sem gradil. Nos largos de São Francisco e da Carioca, no Centro, também havia população de rua. No Largo do Machado, já na Zona Sul, o problema se repetia.

Mendigos ocupam  o Largo de São Francisco, também no Centro (Foto: Fernando Quevedo / Agência O Globo)

Nos espaços gradeados, o quadro era outro. Protegidas, as praças da República e Paris, no Centro, estavam vazias. Na Serzedelo Correia, em Copacabana, outro espaço cercado, também não havia ninguém. Mesmo com as portas abertas, apesar do gradeamento, a General Osório, em Ipanema, não atraiu visitantes sonolentos. Uma das poucas exceções era a Afonso Pena, na Tijuca. Apesar da ausência de grades, não havia mendigos.

‘Nem que a vaca tussa!’: prefeito descarta pôr grades de volta

O prefeito Eduardo Paes diz que não tem um estudo para promover uma ampla remoção de grades das áreas públicas hoje cercadas, mas que achou ótimo ter provocado um debate. Aparentemente disposto a aumentar a provocação, ele brinca dizendo que, se fosse autoritário, já teria retirado as grades do Jardim de Alah. Para ele, as grades não salvaram o espaço, muito pelo contrário:

– Eu acho que não tem nada mais morto do que o Jardim de Alah. Normalmente, vejo algumas pessoas que soltam cachorros para serem treinados ali. E mais nada. A gente pode até fazer um parcão, tudo vai depender do debate. Se eu fosse autoritário, já tinha tirado a grade de lá. Quando fui secretário do Meio Ambiente, em 2000, achei que tinha que abrir, que traria mais benefícios e melhoraria a segurança. Mas houve uma forte reação.

Para o prefeito, há “causos e casos”:

– Se querem chamar o Campo de Santana e a Praça da República de praças, acho que estes locais têm que ser cercados. Eles têm características de parque. Já se for falar da Praça Paris, a minha visão é que ali é outro lugar para se discutir.

Sobre os mendigos terem voltado à Tiradentes, Paes garante que não há a menor possibilidade de a praça ser novamente gradeada:

– Nem que a vaca tussa! Não gosto da perspectiva higienista sobre a população de rua. A gente tem que acolher as pessoas, independentemente se elas dormem na praça ou na rua.

Ele disse ainda que O GLOBO contribui para restringir a discussão à Zona Sul do Rio.

– Acho o debate muito bom. Mas quero discutir também a Zona Norte, a Praça Patriarca, em Madureira, cheia de gente, viva, em contraponto com a praça da Igreja da Penha, fechada e isolada. Por que ninguém quer discutir a Zona Norte?

O GLOBO tem jornais de bairros que atendem à preocupação do prefeito, inclusive na Zona Norte.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/08/10/retirada-de-grades-da-praca-tiradentes-retorno-de-mendigos-reacendem-debate-sobre-estetica-lazer-seguranca-925109276.asp#ixzz1UksWD9x0
© 1996 – 2011. Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.
Anúncios

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
Esse post foi publicado em Formação da Cidade Contemporânea e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s