Na Inglaterra, onda de violência não tem faixas ou slogans

Terra Magazine

Matt Dunham/AP

Em Londres, nesta quarta-feira (10), policiais foram às ruas para evitar novos saques a lojas

Em Londres, nesta quarta-feira (10), policiais foram às ruas para evitar novos saques a lojas

Thiana Biondo
De Londres, Inglaterra

Sábado, dia 6 de agosto. Nada melhor do que curtir uma noite de verão londrina fazendo piquenique e assistindo a um filme no pátio da Somerset House, nas proximidades do Parlamento. No telão, o clássico de Steven Spielberg de 1984: Gremlins. Do outro lado da cidade, na área de Tottenham Hale, um protesto pacífico com mais ou menos 120 pessoas vira um tumulto. Ônibus, dois carros de polícia e uma loja em chamas. Pedia-se justiça depois que um morador da região, Mark Duggan, 29 anos, foi morto pela polícia. A desordem e os saques a lojas tomariam uma proporção fora do contexto do que se conhece como manifestação popular; e entrou pelo quinto dia consecutivo como uma sequência de arrastões.

Particularmente, sempre gostei de um protesto. Em Londres, o “Whitehall” (rua onde estão os Ministérios) fica lotado de manifestantes, bem como a praça onde situa-se o Banco da Inglaterra. Muitos policiais montados a cavalo e muita palavra de ordem por um “contrato social” mais justo. Na onda de violência da Inglaterra, não há faixa, slogans ou agenda. A não ser frases como a que foi rastreada em telefones Blackberry e tomou conta dos noticiários: “If you see a brother, SALUTI. If you see a fed (policial), SHOOT”.

No filme de Spielbeg, outras arruaças e quebradeiras. Os gremlins reviram a cidade, roubam lojas e fazem festa em um bar. Em Londres, o vandalismo é muito mais complexo. Quem são essas pessoas, o que elas fazem nessa loucura coletiva?

Telefone fixo aqui de casa toca. 99% de chance de ser minha minha mãe. Bingo. Compartilhamos o alívio. Segundos depois, veio a pergunta: “Mas, quem são essas pessoas, de onde elas vieram, minha filha? São os imigrantes?” Bom, pensei comigo, eu não sou inglesa e moro no país há quatro anos, portanto sou imigrante. Não tenho coragem nem de roubar na conta do bar. Quebrar vitrine, nem pensar. Tenho trabalho e estudo. “Não, mãe, não são os imigrantes”.

As explicações pululam nos noticiários. É um conflito racial, assim como os protestos dos anos 80 em prol de uma sociedade mais igualitária. Dados do blog do jornalista Doug Saunders, no entanto, apontam que tanto do lado dos baderneiros como dos policiais tem pessoas de diversas etnias. São os funcionários do setor público que perderam ou vão perder o emprego. São os estudantes que viram o Parlamento aprovar a lei que permite as faculdades cobrarem mais de 9 mil libras pela graduação, sendo que antes era um pouco mais de 3 mil libras. São os anti-heróis.

Eles não são heróis anti-capitalistas, pois a lógica deles é tão individualista como a de algumas pessoas que trabalham em centros financeiros. Como o próprio Saunders comenta, os atos mobilizam a juventude sem futuro do Reino Unido, país onde 600 mil jovens com menos de 25 anos nunca tiveram um dia de trabalho. Esse fator, em conjunto com a recessão na Europa e a cultura de gang que existe no País, contribuiu para a desordem. O que justificaria jovens de até 11 anos de idade perderem o medo da polícia e se divertirem roubando um par de tênis ou um eletrônico qualquer? Ao contrário do imaginário da comunidade internacional, a Inglaterra não tem apenas lords que chegam pontualmente para tomar o chá das 5. Há também os ‘chavs’ – quer dizer, os jovens de até 20 e poucos anos que não terminam a escola e respeitam muito mais a lei de suas próprias gangs do que qualquer outro regimento.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5291031-EI6580,00.html

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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