SP: Megadesapropriação desorienta famílias e atinge favelas

Terra Magazine

Dayanne Sousa

A alça do maior túnel de São Paulo vai passar exatamente onde hoje mora Oneide Cauduro Velho. Cabelos brancos e óculos dourados, ela mistura riso e choro ao dizer que não quer nem pensar em dirigir ali quando for inaugurada a mais nova promessa de solução para o trânsito caótico da capital.

O túnel, que vai ligar a avenida Jornalista Roberto Marinho e a Rodovia dos Imigrantes, terá 2,7 quilômetros. A obra faz parte do novo projeto da Operação Urbana Água Espraiada, aprovado nesta segunda-feira (4) por 39 dos 55 vereadores da Câmara Municipal de São Paulo.

Oneide mora na Vila Fachini, região do Jabaquara que será cortada pelo complexo viário. Vive com o marido, José Moacir. Cuida do neto que estuda no bairro e do filho, dependente químico que se trata a poucas quadras dali. “Moro aqui há mais de 30 anos, não sei como vai ser”.

A obra do túnel faz parte de um pacote de mudanças que se transformará na maior desapropriação e remoção de famílias da história da cidade. As remoções começam em agosto, e a conclusão da obra é prevista para 2014. Segundo o estudo de impacto ambiental da prefeitura, 8,1 mil famílias/casas serão afetadas, 7 mil em favelas. Nos cálculos dos moradores, os números são ainda maiores: ao menos 11,4 mil casas, o que significa cerca de 45 mil pessoas.

No Jabaquara, um grupo se organizou para combater o túnel. Eles se reuniram com secretários municipais e vereadores para traçar exatamente o mapa da Operação Urbana. “A prefeitura não nos procurou, descobrimos por acaso quando chegou aqui um pessoal pra fazer medições”, conta Marcos Munarim, um dos coordenadores do movimento.

A operação foi criada em 2001, quando se propôs pela primeira vez um parque linear ao redor do córrego Água Espraiada, região ocupada por favelas. Mas o túnel entrou no pacote, a proposta saltou do valor original de R$ 1,2 bilhão para R$ 4,5 bilhões e chegou às ruas de classe média, como a de Oneide.

Num bairro repleto de idosos, os moradores reclamam que não terão como se mudar para áreas mais próximas. Edwaldo Sarmento, presidente de outra associação da região, diz que, passado mais de um ano de debate sobre a obra, as casas já valem menos do que deveriam:

– A indefinição sobre as obras já desvalorizou a região, o valor que a prefeitura vai pagar a essas pessoas já será muito mais baixo. Conheço gente que vendeu por R$ 200 mil uma casa que vale mais que o dobro disso.

Do outro lado, os imóveis que restam vão ficar mais caros. “Onde eu vou comprar outra casa por aqui?”, lamenta Décio Quintas Lourenço. Ele será obrigado a cuidar da mudança dos sogros, que têm mais de 80 anos e “choram só de ouvir falar”. A casa pertence à família há mais de cinco décadas. O vizinho, Álvaro Ferreira, também vive ali há 52 anos.

Favela e parque linear

O entorno do córrego Água Espraiada é uma mistura de grandes empreendimentos residenciais e quadras inteiras ocupadas por favelas. É neste segundo espaço em que vive a maior parte das pessoas que terão de se mudar. Ocupam barracos que resistem à valorização imobiliária da região.

Por conta das favelas, a obra tem sido tratada como uma reurbanização. Ao redor do córrego, haverá um parque linear e, de acordo com a Secretaria de Habitação, serão construídas moradias populares para essas pessoas na mesma região.

Nenhuma dessas moradias populares, porém, foi concluída. A licitação das obras do túnel e do parque linear obriga as empreiteiras a construírem ao menos 4 mil casas. Mas fica um déficit. Se considerados os dados oficiais, faltarão ao menos 3 mil domicílios. De acordo com os moradores, 6 mil. Estas outras casas ficariam por conta da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), que pertence ao governo estadual.

Enquanto as moradias não forem concluídas, as pessoas receberão o chamado aluguel social, de R$ 300 por mês. O valor, diz a assessoria de imprensa da Secretaria de Habitação, “é de praxe”, mas está bem longe da média dos aluguéis da região, que chegam a R$ 1 mil.

Há mais uma série de obras incluídas na Operação desde 2001 e que envolvem áreas tão diversas como as proximidades de escritórios luxuosos da Avenida Luiz Carlos Berrini e o mercadinho de Joseane Bezerra da Silva.

Joseane usa alguns poucos metros quadrados na beira do córrego Água Espraiada para morar com suas duas filhas e vender algumas frutas. “Falaram que é só em 2014, então a gente vai ficando aqui”.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5224447-EI6586,00.html

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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Uma resposta para SP: Megadesapropriação desorienta famílias e atinge favelas

  1. Luiz Antonio de Jesus Jr disse:

    Maluf e Marta venderam a peso de ouro o “direito” de construir acima da lei na região da atual Roberto Marinho, nada mais justo que as indenizações sejam no mínimo suficientes para permitir aos moradores encontrarem residências no próprio bairro. É vergonhoso o IPTU no Brooklin triplicar em três anos e ver gente pobre ser roubada oficialmente (se é que vão receber pois muitos caem em precatórios que nunca são pagos).

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