Hortas urbanas fazem mais mal do que bem ao meio ambiente

The Boston Globe

Por Edward L. Glaeser

Tradução: Marcos Costa

Há muitas boas razões para gostar de alimentos locais, mas qualquer produção metropolitana em larga escala vai fazer mais mal do que bem ao meio ambiente. Se ocuparmos terras para a agricultura metropolitana promoveremos níveis mais baixos de densidade, viagens mais longas, e aumento das emissões de carbono que não compensam a modesta diminuição de emissões de gases do efeito estufa, associados à redução dos fretes  para transportar comida.

No ano passado, presidi a comissão para o Futuro de Boston, e nosso relatório endossou as hortas urbanas. Barbara Lynch, membra do comitê,  destacou o valor educativo de se deixar as crianças verem os alimentos crescerem e eu estava de acordo. Partilho da opinião de que os alimentos locavore (feitos no local) tem um sabor melhor (especialmente as ostras), e que há algo de maravilhoso em comer alimentos que você mesmo plantou.

Mas, no que tange aos benefícios ambientais urbanos, é um erro pensar que as áreas metropolitanas podem tentar  suprir as suas necessidades alimentares. Ambientalismo bom é ambientalismo inteligente, que pensa no impacto sistêmico de qualquer ação. Áreas agrícolas dentro de uma região metropolitana diminuem os níveis de densidade habitacional e nos empurram para longe dos centros urbanos, provocando um drástico aumento das emissões de carbono.

Em 2008, dois pesquisadores da Carnegie Mellon analisaram qual seria a redução das emissões de carbono que a comida local poderia promover. Eles descobriram que o consumo de comida americana produz gases de efeito estufa equivalente a 8,9 toneladas de dióxido de carbono por família por ano. O transporte de alimentos representa 0,4 mil toneladas desse total; todo o transporte agrícola para cima e para baixo na cadeia alimentar cria uma tonelada de dióxido de carbono por família por ano.

Devemos pesar os benefícios ambientais de se transportar menos alimentos, contra os custos ambientais de sua produção e armazenamento em locais que não possuem as condições ideais para isto. Um relatório recente no Reino Unido informa que as emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao consumo de tomates Ingleses foram cerca de três vezes maiores do que as relativas aos tomates espanhóis. A energia extra e os fertilizantes envolvidos na produção de tomates na fria Inglaterra, anula os benefícios obtidos com o menor uso dos meios transporte. Mesmo cordeiros criados na Nova Zelândia  produzem menos gases de efeito estufa do que o cordeiro Inglês. O estudante de Berkeley Steven Sexton, estima que se os americanos  aumentassem sua produção local de milho, ocorreria um aumento de mais de 35% no uso defertilizantes e de 22,8% mais no consumo de energia.

Mas o custo ambiental mais importante da horta urbana é que ao diminuir os níveis de densidade, ele promove um aumento do uso de meios de transporte. Hoje, cerca de 250 milhões de americanos vivem nos 60 milhões de hectares urbanos deste país – o que corresponde a uma densidade de pouco mais do que quatro pessoas por acre. Em contraste, a América usa 442 milhões de hectares de terras cultiváveis ​​e 587 milhões de hectares de pastagens, com densidades de cerca de 1,4 e 1,9 hectare por pessoa, respectivamente. Se nós alocássemos apenas 7,2% destas áreas agrícolas em regiões metropolitanas, reduziríamos pela metade a densidade urbana.

O Travel Survey National Highway nos ensina que quando as densidades caem pela metade, as famílias compram cerca de 385 litros de gasolina a mais por ano. Se além disto  também duplicássemos as distâncias do centro da área metropolitana, deveríamos contabilizar mais 158 litros de gasolina por ano. Juntos estes dois fatores acarretariam um aumento do consumo de gasolina, que geraria um acréscimo de 1,77 toneladas de dióxido de carbono por ano, o que representaria 1,77 vezes a emissão de gases de efeito estufa produzidos por todo o transporte de alimentos, e quase quatro vezes e meia as emissões advindas de sua distribuição. Tudo isto seria causado pela inserção de menos um décimo das terras agrícolas dentro de áreas metropolitanas.

Não é plausível imaginar algo como um extra de 0,24 hectares de terrenos agrícolas por pessoa, nas metrópoles da América. Mas pequenas mudanças também trarão pequenas reduções nas emissões de gases de efeito estufa por conta do transporte de alimentos. Se apenas um vigésimo de acre de horta urbana per capta pudesse (implausível) eliminar metade das emissões geradas pelas distribuição de comida, isto traria consigo um aumento do consumo de gasolina da ordem de 148 litros por habitação.

A conexão entre a vida em áreas com maior densidade habitacional e o menor uso de energia é forte. Hortas urbanas significam menos pessoas vivendo por metro quadrado,  o que por sua vez significa viagens mais longas e mais consumo de gasolina. O transporte de alimentos consome bem menos energia do que o transporte de pessoas. Se a primeira-dama (moc – Michelle Robinson Obama)quer ajudar o meio ambiente, ela deve fazer uma campanha em prol dos edifícios de apartamentos, ao invés de plantar vegetais.

Edward L. Glaeser, professor de economia na Universidade de Harvard, é diretor do Instituto Rappaport para a Grande Boston.

http://articles.boston.com/2011-06-16/bostonglobe/29666344_1_greenhouse-gas-carbon-emissions-local-food

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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