A reconstrução de São Luiz do Paraitinga

IG – Último Segundo

‘União do povo faz a reconstrução de São Luiz do Paraitinga’

por Fernanda Simas

Um ano e meio após ser destruída por fortes chuvas, cidade está sendo reconstruída e turistas começam a voltar.

“São Luiz perdeu parte de seus casarões, mas não perdeu sua cultura. Perdeu parte de sua igreja, mas não perdeu sua fé. A união desse povo é que faz a reconstrução”. A frase do diretor de turismo de São Luiz do Paraitinga (170 quilômetros de São Paulo), Eduardo de Oliveira Coelho – chamado pelos moradores de Dudu –, resume o cenário que a reportagem do iG encontrou ao percorrer a cidade de 11 mil habitantes um ano e meio depois da enchente que atingiu e destruiu parte do município. Na véspera do Ano Novo de 2010, choveu 200 milímetros na cidade, o equivalente ao esperado para um mês, causando o transbordamento do rio Paraitinga – Águas Claras em tupi-guarani – que subiu 12 metros. Pontes foram inundadas. No dia 1º de janeiro, o centro histórico amanheceu debaixo d´ água. A Igreja Matriz São Luiz de Tolosa – principal ponto turístico local – desmoronou e outras 82 construções históricas foram afetadas, sendo que 30 ficaram totalmente destruídas. Até hoje é possível ver a marca que a água deixou nas paredes das residências.

A reconstrução de toda cidade tem a ajuda dos governos estadual e federal, que juntos forneceram cerca de R$ 200 milhões a São Luiz do Paraitinga, sendo que pouco mais de R$ 100 milhões já foi investido nas obras, que devem respeitar algumas normas. Dos 437 imóveis datados dos séculos 18 e 19 que fazem parte do Centro Histórico da cidade e são tombados desde 1982 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), 65 sofreram algum dano e 18 foram arruinados. Eles deverão ser reconstruídos, mas sua arquitetura original – feita a partir de 1850, época do ciclo do café – deve ser preservada. “Hoje quem vem para o centro já pode ver os casarões em pé e a pintura nova dá um tom de alegria”, diz o diretor de turismo, com um grande sorriso no rosto. E o motivo da alegria é comprovado em números: 90% da infraestrutura da cidade foi recuperada, isso inclui a construção das barreiras de contenção do rio e a reconstrução de pontes e das entradas da cidade. Com relação ao patrimônio material, o processo é um pouco mais lento, mas 50% das construções já foram totalmente restauradas.

Ainda em 2010 foi instalado um sistema de alarme para evitar novas tragédias. Sensores colocados no rio Paraitinga enviam informações sobre variações do nível da água e da temperatura para Taubaté e, se necessário, o alarme soa pelo menos seis horas antes de qualquer catástrofe acontecer. Além disso, obras de desassoreamento, recuperação de nascentes e aumento da calha do rio estão sendo feitas. As famílias que perderam suas casas e estavam em áreas de risco foram retiradas dos topos de morros ou margens do rio e levadas para moradias da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Foram 151 sobrados construídos, com 54 metros quadrados, dois quartos e garagem cada. As paredes de concreto são revestidas de material PVC, o que melhora o isolamento acústico e térmico. Antes de essas moradias estarem prontas, cada família desabrigada recebeu da prefeitura um auxílio-moradia de R$ 300 mensais. Todos os projetos para a reconstrução da cidade estão concentrados no Ceresta (Centro de Reconstrução e Desenvolvimento Sustentável) de São Luiz do Paraitinga, criado após as enchentes e que reúne bases do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Condephaat, do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e de universidades, como a Unesp, além de departamentos de cultura, agricultura e planejamento. Com isso, trâmites que levavam dias por depender da aprovação de algum desses órgãos agora levam horas. Foto: Fernanda Simas, iG São Paulo Ampliar Homens trabalham na reconstrução da Capela das Mercês O trabalho para recuperar São Luiz começou logo após a tragédia. Quando a água baixou, o cenário que se viu foi uma cidade cheia de lixo, barro e destroços. Cerca de 100 pessoas trabalharam diariamente na limpeza das ruas e na desobstrução de vias, enquanto 14 caminhões eram encarregados de levar o entulho para o aterro sanitário da cidade. Atualmente, são mais de mil trabalhadores atuando na reconstrução. Em setembro, a Capela das Mercês vai ser reinaugurada. Construída em 1813 em estilo colonial, não suportou a cheia do rio e ficou encoberta pela água. Os luizenses estão empenhados no trabalho e, segundo Coelho, “contam muitas histórias, tristes, alegres ou divertidas, sobre a cidade do povo que se orgulha de ser caipira.” Mudanças na rotina O proprietário da Cia. de Rafting, João Eduardo do Espírito Santo, de 42 anos, diz que mudou os antigos hábitos depois de perder quase tudo na tragédia. Ele só conseguiu salvar roupas, alguns aparelhos eletrônicos e equipamentos de trabalho. “Não vejo mais TV, não tenho tudo mobiliadinho como antes. Isso perdeu o valor”, enfatiza. José Roberto da Silva, de 48 anos, proprietário do restaurante Cantinho dos Amigos desde os anos 1990, conta que precisou diminuir os preços pela metade e os turistas só voltaram a frequentar o local depois de seis meses do início da reconstrução da cidade. Mesmo assim, ele afirma que o público mudou. “A cidade está diferente. São Luiz deixou de ser um local interessante para ser um local de piedade.” Ele explica que, apesar dessa impressão, sente que os moradores passaram a dar mais valor à vida. “O que você arrecada, junta a vida inteira, pode acabar em um minuto. O que me manteve em pé no mercado foi o povo luizense. Senti um calor humano muito maior.” Depois da tragédia, o crescimento A primeira cidade planejada do Estado de São Paulo, com ruas retas e bairros em retângulos perfeitos, é palco de 26 festas, entre elas o tradicional carnaval de rua com marchinhas, a festa do Saci Pererê e a Festa do Divino. A cidade recebia cerca de 400 mil turistas por ano, número que caiu quase 50% depois da tragédia. Segundo o diretor de turismo Eduardo de Oliveira, a redução não foi maior porque algumas pessoas eram atraídas pela tragédia e passavam pela cidade para fotografar as ruínas das construções históricas. Mas, ele acredita que o número de turistas deve voltar a crescer. “A recuperação já acontece. Em um ou dois anos voltaremos ao que éramos. Nesse carnaval [2011] já recebemos cerca de 20 mil turistas”. Nos carnavais anteriores à tragédia, o número de visitantes chegava a 150 mil. Ele lembra que os prejuízos com a enchente foram enormes, mas acredita que a reconstrução está possibilitando que a cidade cresça o que não cresceria por conta própria, afinal agora conta com ajuda federal e estatal. “A cidade está mais equipada, a infraestrutura vai crescer. A tragédia foi muito negativa, mas possibilitou ter aparatos como se fosse uma compensação.” Além da reconstrução dos casarões e locais atingidos pela enchente, a cidade vai ganhar uma praça de eventos, um centro de informações turísticas e os fios serão aterrados, com o objetivo de trazer de volta o cenário do século passado.

O artesão Benito Euclides, 59 anos, nasceu em São Luiz do Paraitinga e é famoso no local por criar poesias e marchas para o carnaval. Três anos antes da tragédia, uma de suas poesias anunciava um possível desastre natural. “Aqui a gente literalmente tem tempo para ver o tempo. Eu percebia as mudanças climáticas e achava que algo iria acontecer”, explica Benito, com um certo ar de mistério. “As tempestades eram mais fortes, o comportamento do rio era diferente, então escrevi uma poesia sobre isso.” A Lenda da Cobra Grande, misturada com um sonho que teve, virou poesia. Diz que uma mulher aborta e joga o feto no rio Paraitinga. Ele se transforma em cobra, cresce e engole os pescadores que ficam nas margens. Os pescadores matam a cobra, deixam a cabeça na Igreja Matriz e o rabo na Igreja do Rosário. Se houvesse alguma intercorrência, a cidade seria destruída. Em uma noite, Benito tem um pesadelo e percebe que o trajeto do rio se parece com uma cobra e que, de fato, destruiu a cidade. Isso bastou para a poesia surgir e cair no gosto dos luizenses.

O sino precisa bater. Ao olhar para a estrutura montada no espaço da Igreja Matriz que ruiu durante a enchente, um pequeno anexo de madeira chama a atenção. Às seis horas da tarde, um homem sobe as pequenas escadas e badala o sino que fica ali suspenso. O mesmo procedimento ocorre às 6 horas. O motivo: muitos luizenses contavam a funcionários da prefeitura que continuavam ouvindo o sino bater nesses horários, mesmo ele não estando mais ali – já que caiu junto com a igreja. Depois de tomar conhecimento do fato, a prefeitura improvisou um espaço para colocar o sino de volta na praça e ele voltou a bater regularmente todas as manhãs e finais de tarde.

A reconstrução só termina com igreja erguida Ao passar pelo local em que se encontrava a Igreja Matriz de São Luiz do Tolosa, no centro histórico, só é possível ver duas colunas que permaneceram em pé, o piso de pedras, uma parte do púlpito e alguns objetos que foram resgatados, como imagens de santos. Uma grande caixa de acrílico exibe milhares de pregos que estavam em sua estrutura, pois na época de sua construção (1772) não eram usados parafusos. Uma cobertura provisória serve como proteção para esses objetos e para as pessoas que trabalham todos os dias para reconstruir o principal ponto turístico da cidade. Ao mesmo tempo, quem nunca tinha visto a igreja antes pode ter uma ideia de como era o seu formato, estilo neoclássico com elementos do barroco. Ela era feita de taipa de pilão – técnica bandeirista que intercalava madeira e barro – e deve levar de dois a três anos para ser reconstruída, preservando as características originais, mas usando concreto e alvenaria também, para ser mais resistente a enchentes. “A igreja era feita de barro. Com a enchente, o material hidratou e desmoronou”, explica o diretor do turismo. Com um investimento de R$ 13 milhões, essa é a principal obra de reconstrução de São Luiz do Paraitinga. “Você pode ter certeza de que só vamos fincar a bandeira da reconstrução aqui quando a Matriz estiver em pé novamente”, ressalta Eduardo de Oliveira.

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/uniao+do+povo+faz+a+reconstrucao+de+sao+luiz+do+paraitinga/n1597056496480.html

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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