Críticas ao crescimento de Salvador

Luis Nassif Online

Do Gente & Mercado

A lógica do crescimento de Salvador e a do capital mobiliário

Em entrevista exclusiva ao Gente&Mercado, o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo fala sobre o sistema de transporte ideal para Salvador, critica o BRT, que considera defasado, sem capacidade para atender a demanda da cidade, além de causar um grande impacto ambiental. Condena a mudança da estação rodoviária, proposta pelo governador Jaques Wagner, e fala sobre as alterações que querem impor ao PDDU.

G&M – O governo acaba de receber diversas propostas voltadas para a questão da mobilidade urbana de olho na Copa do Mundo. No seu entender, qual a melhor delas?

Paulo Ormindo de Azevedo – A premissa básica é a seguinte: este sistema que vai se implantar do aeroporto até a estação do metrô do Acesso Norte não vai servir para o turista da Copa do Mundo. Quem vem de uma viagem de nove ou dez horas de voo, pagou em torno de US$ 4 mil, não vai pegar o BRT ou o que for, para ir até uma estação de transbordo, que não tem elevador, e chegar na Lapa, que está perto do estádio. É muito mais simples pegar um táxi e ir para o hotel. E é isso que vai acontecer. Os hotéis, como em todo mundo, mandarão vans para pegar seus hóspedes. Então, não é por aí. Está se aproveitando o pretexto da Copa para se implantar um sistema de transporte que se supõe de massa, o que não é mal.

G&M – Na sua opinião, qual o sistema que Salvador precisa e deve ter?

POA – A cidade do Salvador duplicou de população a cada duas décadas nos últimos 50/60 anos. O grande argumento que se coloca em defesa do BRT é que ainda não há demanda para um metrô na direção do Litoral Norte. A questão é a seguinte: ou a gente planeja para 20 ou 30 anos ou então qualquer sistema que se implante vai estar caduco em pouquíssimo tempo. Veja o exemplo do aeroporto. Quer dizer, Salvador dentro de 20 anos deverá ter o duplo da população. Como há uma pequena tendência de desaceleração de crescimento, no máximo, em 25 anos, Salvador terá 6 milhões de habitantes. Uma cidade com essa população não pode prescindir de um sistema de transporte verdadeiramente de massa, o que em outras palavras significa metrô.

G&M – Qual a sua avaliação do BRT (Bus Rapid Transit)?

POA – O BRT, que é um ônibus articulado dentro de uma calha exclusiva, é um sistema na verdade de transporte mediano de tráfego. Ele foi inventado por Jaime Lerner, em Curitiba, há 40 anos, e foi aperfeiçoado na Colômbia com o Transmilênio. Acontece que a cidade de Bogotá é uma cidade plana, de traçado reticular. Mas este não é um sistema possível nas condições de traçado urbano e de topografia de Salvador. Ele pode ser colocado no trecho que vai do Aeroporto até o Iguatemi, via Paralela, porque temos canteiros centrais que permitem criar faixas de trafego local e expresso, mas a partir desse ponto não tem mais como seguir com esse sistema. Nas avenidas de vale é possível tirar uma pista de carro e fazer uma via exclusiva de ônibus, mas em fila indiana. Se um ônibus parar ou quebrar, tudo para. E tem mais, esses ônibus articulados não sobem rampa de mais de 6%.

G&M – E o VLT (Veículo Leve sobre Trilho)?

POA – O VLT, como o próprio nome diz, também não é um sistema de tráfego pesado. No fundo é um trenzinho menor, com três vagões e dois intermediários de articulação, com desempenho parecido ao do BRT, mas que leva algumas vantagens, como a de não exigir a impermeabilização do solo, isto é, usar asfalto. Na Europa toda existe esse modal de transporte correndo em cima de gramado, sobre trilhos. Além disso, não é poluente, não queima diesel. No caso do BRT na Paralela teremos que colocar quatro pistas no canteiro central e isso significa uma faixa enorme de asfalto, numa cidade que já vive inundada porque não tem superfície de absorção. E, por último, para mim decisivo, o VLT pode ser um sistema intermediário entre o que se quer implantar apressadamente para a Copa e a futura linha 2 do metrô (que supostamente sai da Lapa em direção ao Litoral Norte passando pela Paralela, Estrada do Coco). Se forem colocados trilhos com capacidade para suportar o peso de um metrô, dentro de 10 ou 15 anos pode-se substituir o VLT por um metrô, sem interromper praticamente o funcionamento do sistema . Instalando o BRT agora é praticamente impossível substituí-lo depois pelo metrô, porque isso implicaria na paralisação da cidade durante, na melhor hipótese, durante dois ou três anos. Ora, se a Parelela já não funciona a contento agora, imagine parar por esse tempo para se colocar trilhos, substituir os pontilhões etc. A cidade entraria num caos. O BRT é o barato que sai caro.

G&M – Agora se fala também no monotrilho. Seria um sistema viável?

POA – O aeromóvel é um tipo de monotrilho ou monorail. Foi inventado por um engenheiro de Porto Alegre e para efeito de experimentação deveria ter um quilômetro de extensão. Mas nem isso foi feito, só 600 metros. É um bondinho com dois vagões usado para demonstração quando chega alguma autoridade. Não funciona como transporte. É uma brincadeira, uma coisa mais para lazer. Uma desinformação completa das pessoas que estão fazendo essa proposta. Os únicos usos de monorails que se conhecem são dentro de aeroportos, ligando dois terminais, ou em parques de diversão. É um trem que corre em cima de uma viga de concreto, que não permite ter desvios. É um transporte de vai e vem ou em circulo. Então, eu me dispenso de conversar sobre o aeromóvel, porque acho que não tem nada que ver o transporte de massa de Salvador.

G&M – Mudando de assunto, existe uma intenção de realizar alguma alterações no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano). O que significa na prática isso?

POA – Querem fazer um PDDU para contemplar empreendimentos ligados à Copa, é basicamente para permitir fazer hotéis em torno do Dique, na Orla, o que hoje não é permitido. Os grupos hoteleiros dizem, e com certa razão, que temos uma capacidade hoteleira até certo ponto ociosa. Não serão 40 mil turistas – considerando que temos um estádio com capacidade para 45 mil lugares – que vão criar uma crise na hotelaria local. Porque esta mesma cidade recebe meio milhão de turistas durante o Carnaval. Ora, não há necessidade de novos empreendimentos hoteleiros, que só vão aumentar a ociosidade. O que é preciso fazer é reciclar, modernizar os hotéis que temos, que estão velhos, e, naturalmente, investir na qualidade do serviço. Além disso, Salvador é uma cidade marítima, pode-se arrendar navios que sirvam como hotéis. A Grécia fez os Jogos Olímpicos dessa forma.

G&M – Depois de alguma discussão, finalmente o Instituto de Gestão das águas e Climas (Ingá) e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) foram unificados. O que significou isso?

POA – Essa foi uma operação para tornar mais lubrificado o sistema de licenciamento ambiental. A questão principal é o desaparelhamento quase total do Estado de quadros técnicos para, pelo menos, julgar projetos. Essa discussão do sistema modal de transporte na RMS demonstra que não tem ninguém na esfera publica capaz de apontar uma solução bem fundamentada. O estado se transformou num grande balcão. A iniciativa privada, as construtoras, basicamente, trazem projetos que atendem fundamentalmente a seus interesses e oferecem ao Estado, que os compra sem maiores analises. Há uma perda completa de capacidade gestora do estado, que passou a ser uma instância puramente reativa às propostas da iniciativa privada, à pressões populares e aos acidentes ambientais. O estado perdeu a capacidade de antecipação, de planejamento do regional e do local.

G&M – O governador fala em transferir a estação rodoviária e o Detran para Simões Filho, alegando que isso ajudaria a melhorar a questão da mobilidade urbana. Qual a sua opinião?

POA – Em qualquer parte do mundo, a estação rodoviária como a ferroviária está no centro da cidade ou, na melhor das hipóteses, ligada a um eficiente sistema de transporte de massa. Você imagina o povo do interior descer no limite do município de Salvador e pegar um táxi, que vai custar mais que a passagem de ônibus ou então disputar no tapa, com mala e cuia na mão, um buzu? A lógica que reina é a do capital mobiliário, não o do bem estar da população. A rodoviária, como o Detran e o edifício do Desenbahia, estão num ponto que se tornou muito valorizado. Chegou-se a dizer, inclusive, que com esse dinheiro se poderia financiar o sistema de transporte de massa da Copa. Mas o que importa não é o turista é o soteropolitano.

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/criticas-ao-crescimento-de-salvador

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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