Seca severa força a China a liberar 5 bilhões de metros cúbicos

The Guardian

por Jonathan Watts

25/05/2011

tradução Marcos Costa

Seca severa forçou a China a liberar 5 bilhões de metros cúbicos de reserva das Três Gargantas para irrigação e água potável

O rio Yangtze secou no município de Chongqing, sudoeste da China. A grave seca forçou a liberação maciça de água do reservatório das Três Gargantas da China para irrigação e água potável.

O Yangtze – o maior rio da Ásia – está enfrentando sua pior seca em 50 anos, o que forçou a liberação inédita de água do reservatório das Três Gargantas. A seca está prejudicando lavouras, ameaçando a vida selvagem e levantando dúvidas sobre a viabilidade das ambições chinesas no desvio de enormes volumes de água.

Entre hoje e 10 de Junho, a barragem vai liberar 5 bilhões de metros cúbicos de água – o equivalente ao volume do Lago Windermere na Grã-Bretanha a cada dia – sacrificando a geração hidrelétrica em detrimento da irrigação, do abastecimento e do apoio ao ecossistema.

A drástica medida ocorre em meio a alertas de desabastecimento e destaca a gravidade da estiagem no delta do rio Yangtze, que suporta 400 milhões de pessoas e 40% da actividade econômica da China.

De janeiro a abril, a província mais atingida de Hubei teve precipitação 40% menor do que a média no mesmo período desde 1961. Shanghai, Jiangsu e Hunan também são severamente afetadas.

As autoridades regionais declararam mais de 1.300 lagos “mortos”, o que significa que eles estão fora de uso para irrigação e abastecimento potável. A escassez afeta 4,4 milhões de pessoas e 3,2 milhões de animais, de acordo com o Departamento de Estado para Controle de Inundações e Seca.

O estreitamento do Yangtze e seus afluentes, deixou milhares de barcos encalhados e um trecho de 220 km foi vedado para navios porta-containers.

O governo central enviou bombas de água e geradores a diesel para Hubei e Hunan para aliviar o impacto. Isso é caro e aumenta as pressões sobre a oferta de energia na China em um momento em que as autoridades estão alertando sobre os piores cortes de energia em sete anos.

“A principal causa desta seca é a falta de chuva. Mas também podemos estar certos de que a barragem das Três Gargantas tem tido um impacto negativo sobre o abastecimento de água a jusante”, disse Ma Jun, fundador do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais. “Este é um lembrete de que a água no rio Yangtze não é ilimitada. Nós não podemos apostar tudo no rio. Precisamos nos concentrar mais na conservação”.

Agricultores estão desesperados e bombeiam água de reservas naturais, disparando o alarme entre os ambientalistas sobre a perda de habitat para várias espécies ameaçadas de extinção, incluindo o boto finless – o último remanescente de cetáceos no Yangtze após o desaparecimento do golfinho baiji.

No Swan Island reserva natural nacional, a profundidade é três metros mais baixa do que no ano passado – que fora um recorde de baixa. De acordo com Wang Ding, especialista em golfinhos no Instituto de Hidrobiologia da Academia Chinesa de Ciências, o habitat de 30 botos caiu pela metade do comprimento de 21 km para 10 km.

“Botos Finless não podem sobreviver se o nível continuar a cair”, disse Wang à agência de notícias Xinhua. “Se a área de actividade é reduzida eles podem ser retidos nos bancos e podem morrer pois eles não conseguem nadar para trás.” Estim-se que existam 1.000 botos no rio.

As autoridades têm tentado a semeação de nuvens para induzir a chuva, mas uma breve chuva no fim de semana esteve longe de ser suficiente. A administração meteorológica da China vê pouca chance de chuva antes do final do mês e as temperaturas na região afetada podem chegar aos 36C.

Para minimizar o impacto, a administração de Três Gargantas foi instruída a abrir as comportas. Já foi descarregado 1,8 bilhão de metros cúbicos de água este mês, tendo o nível do reservatório chegado aos 153m abaixo do pico de 175m.

O papel da barragem na seca tem sido objecto de um debate feroz. Comunidades a jusante, têm acusado Três Gargantas de reter muita água para gerar energia. Ambientalistas dizem que isto tem contribuído para o desaparecimento de lagos e pântanos, que já estão sob pressão do desenvolvimento urbano e das demandas da agricultura. Os operadores, porém, dizem que o reservatório ajuda a aliviar a escassez por meio de um lançamento pontual de água.

Na semana passada, o governo da China – reconheceu que Três Gargantas enfrenta “problemas urgentes” de prevenção de desastres geológicos, realocação e proteção ecológica. É notável o impacto negativo sobre o abastecimento de água e transporte fluvial a jusante.

A barragem não é único projeto de engenharia hidráulica que vem sendo criticado, por conta da seca. O projeto do estado de desvio maciço de água, que pretende explorar as normalmente úmidas áreas da bacia do Yangtze para fornecer água para as áridas cidades do norte como Pequim, também está sendo posta em xeque pois um dos reservatórios de sua fonte em Danjiangkou caiu 4m abaixo do mínimo necessário para a sua operação.

“A seca terá um impacto sobre o projeto de transposição”, disse Zhang Junfeng, um ativista ambiental da Green Earth Volunteers. “A água de armazenamento do reservatório de Danjiangkou já está em um nível crítico e acho que a situação vai piorar de ano para ano, pois isso é em parte devido à mudança climática”.

http://www.guardian.co.uk/environment/2011/may/25/china-drought-crisis-yangtze-dam

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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