A China Contemporânea

A BBC Brasil publicou ao longo da última semana uma série de reportagens que ajudam a compreender o que é a China atual. Na sequência uma coletânia com as mais relevantes.

BBC Brasil

Silvia Salek

O ‘Vale do Silício’ chinês

A região de Zhongguancun, em Pequim, é considerada a resposta chinesa ao Vale do Silício americano.

O local é visto como uma das vitrines da iniciativa do governo chinês de investir em uma economia mais voltada para inovação e alta tecnologia.

 

A região de Zhongguancun fica próxima a universidades de Pequim

Segundo um relatório do HSBC, em 2009, empresas do local do ramo de internet e alta tecnologia abriram capital.Em 2010, foram 35, o que mostra, segundo o banco, a velocidade com que os chineses estão avançando no ramo.A área fica perto de algumas das melhores universidades chinesas, o que facilita um intercâmbio tecnológico com as empresas do local e, além disso, recém-formados contam com incentivos para montar empresas.Não apenas empresas chinesas, mas também gigantes do setor como Intel, Motorola, entre outras, têm operações entre as cerca de 20 mil empresas de Zhongguancun

Produção industrial chinesa já é a maior do mundo

O volume em dólares da produção industrial chinesa em 2010 já é o maior do mundo, segundo levantamento da consultoria IHS Global Insight.

Segundo o levantamento, as fábricas chinesas assumiram o primeiro lugar em uma área que estava sob liderança dos EUA por 110 anos.

A consultoria destaca que houve uma forte recuperação nos Estados Unidos em 2010, mas o crescimento acelerado na China e a valorização do yuan contra o dólar elevaram o valor nominal da produção chinesa para US$ 1,99 trilhão, portanto, acima do US$ 1,95 trilhão de valor produzido pelas fábricas americanas.

“Enquanto a indústria americana e de boa parte do mundo passaram por uma contração, principalmente em 2008, a da China continuou se expandindo. O setor industrial cresceu 18% (valor nominal, sem ser descontada a inflação) em dólares em 2010. Além disso, a valorização do yuan frente ao dólar impulsionou o valor da produção chinesa medido em moeda americana”, escreveram os autores do estudo.

Apesar da produção chinesa ter ultrapassado um marco histórico, a produtividade continua deixando a desejar. Para produzir um valor levemente superior ao verificado nos Estados Unidos, a China precisou de um número muito maior de trabalhadores.

 

Produção industrial representa 33% do PIB chinês

Segundo os números apresentados pela IHS Global Insight, 11,5 milhões de trabalhadores do setor industrial americano produziram um pouco menos do que 100 milhões de trabalhadores chineses do setor.

Peso da indústria

A economia americana como um todo ainda é cerca de três vezes maior do que a da China, uma liderança que deve perdurar até o fim desta década. Pela maioria das projeções, a virada ocorreria entre 2020 e 2025.

A diferença é o peso do setor industrial. Esse peso é maior na China do que em qualquer outra grande economia, segundo a Global Insight.

No país, as indústrias representam 33% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos Estados Unidos, o peso da indústria é menor, de 13% do total do PIB.

“Por outro lado, o setor de serviços na China representa uma parcela pequena do PIB quando comparada com outros países, o que frequentemente pode ser uma fonte de fragilidade econômica”, diz o estudo.

Além de uma produtividade inferior, a indústria chinesa ainda tem um perfil predominante de mais baixo valor agregado. Por outro lado, os Estados Unidos têm uma parcela maior de indústrias que empregam tecnologias mais avançadas.

Clique Leia também na BBC Brasil: Nove entre dez cidades que mais vão crescer estão na China

Mudança de perfil

A China, no entanto, tenta mudar o quadro com investimentos pesados e políticas governamentais que tentam atrair investimentos nestas áreas de maior valor agregado.

Recentemente, o governo anunciou novas regras abrindo para investimentos estrangeiros setores de alta tecnologia, energia limpa, aeroespacial e de aviação.

As medidas seguem as metas traçadas no 12º Plano Quinquenal, que cobre o período de 2011 a 2015, de priorizar políticas e investimentos que incentivem a inovação e alta tecnologia.

A área de Zhongguancun, em Pequim, é umas das vitrines desta China que o governo quer criar.

Conhecida como o “Vale do Silício” chinês, tem uma grande concentração de empresas de alta tecnologia estrangeiras e também nacionais.

Segundo um relatório do HSBC intitulado “Por Dentro do Motor do Crescimento”, 23 empresas locais de alta tecnologia e internet abriram capital em 2009, contra apenas uma no original pólo na Califórnia. Outras 35 abriram capital em 2010 (dados preliminares)

China registra primeiro déficit comercial em sete anos

 

Alta do yuan torna produtos chineses mais caros e barateia importações

A China registrou nos primeiros três meses deste ano o seu primeiro déficit comercial trimestral em sete anos, informaram nesta segunda-feira as autoridades chinesas.

As importações superaram as exportações em US$ 1,02 bilhão. No mês de março, o país teve um pequeno superávit de US$ 140 milhões.

Os números refletem a política chinesa de tentar aquecer a demanda interna para compensar a sua economia, até então voltada primordialmente para as exportações.

Entretanto, analistas ressaltaram que as estatísticas podem estar mais relacionadas à baixa demanda em mercados-chave para a China, como os EUA e a Europa, não necessariamente indicando uma reversão da tendência dos anos anteriores.

“As exportações da China devem continuar aquecidas nos próximos meses à medida que a demanda se recupera nos Estados Unidos e na Europa. O país deve registrar superávits comerciais nos próximos meses”, disse o analista Wang Hu, da corretora Guotai Jun’an, de Xangai.

Efeito tsunami

Por outro lado, o próprio governo expressou a preocupação com os efeitos do terremoto e do tsunami no Japão, que devastaram vastas áreas de um dos principais parceiros comerciais da China.

Analistas dizem que, até que se saiba com clareza a extensão dos prejuízos do desastre natural para a economia japonesa, será difícil estimar o impacto sobre outros países.

O analista Isaac Meng, do banco BNP Paribas, crê que as dificuldades no Japão devem ter um efeito nos números chineses do segundo trimestre.

No longo prazo, crê Wang, da Guotai Jun’an, a própria reconstrução do Japão significará mais demanda para os produtos chineses.

Câmbio

A China tem sido acusada de beneficiar as suas exportações mantendo uma taxa de câmbio artificialmente baixa, o que torna seus produtos mais baratos no exterior.

Nos últimos 12 meses, entretanto, o yuan se valorizou 4% em relação ao dólar, sendo cotado nesta segunda-feira a pouco mais de 6,54 por dólar.

A alta do yuan tem barateado as importações e ajudado o governo a combater a inflação doméstica.

Brasil foi principal destino de investimento chinês em 2010, diz entidade

Investimentos chineses buscam principalmente recursos naturais

Um levantamento da entidade americana Heritage Foundation indica que o Brasil se tornou o principal destino de investimentos diretos chineses em 2010.

No levantamento, intitulado China Global Investment Tracker, a entidade lista o equivalente a cerca de US$ 13,7 bilhões investidos por chineses no Brasil em 2010. O número exclui títulos públicos e investimentos de menos de U$ 100 milhões.

Para efeitos comparativos, Nigéria e Argentina receberam em torno de US$ 8 bilhões cada um da China em 2010; e EUA e Canadá, por volta de US$ 6 bilhões cada, de acordo com os números do levantamento.

“O Brasil foi o grande destaque de 2010. E o perfil dos investimentos segue o padrão que vem se mostrando recorrente no resto do mundo: chineses em busca de acesso a recursos naturais. O investimento chinês é definitivamente liderado pela busca por commodities”, disse à BBC Brasil Derek Scissors, pesquisador do Centro de Estudos Asiáticos da entidade, com sede em Washington.

Um dos desafios da presidente Dilma Rousseff é criar bases, em sua visita à China, para investimentos chineses em setores considerados estratégicos para o Brasil e que tenham mais alto valor agregado.

Clique Leia também na BBC Brasil: China avança rumo ao status de superpotência

Com o salto em 2010, o Brasil passa a terceiro destino de investimentos diretos chineses quando se considera o valor acumulado nos cinco anos entre 2006 e 2010. Austrália e Estados Unidos continuam sendo os principais alvos dos recursos da China nessa contagem mais ampla.

Onda da investimentos

Segundo o levantamento, o Brasil faz parte de uma onda recente de investimentos que atinge a América do Sul. Segundo Scissors, isso pode ser explicado pelo fato de que há comunicação entre as empresas estatais chinesas, o que acaba criando bases para uma estratégia comum.

“Essas ondas acabam gerando uma forte reação contrária em alguns países, mas não necessariamente serão duradouras”, acrescentou o pesquisador.

Para tentar formar o quebra-cabeças do destino dos investimentos diretos chineses, o especialista em China acompanha anúncios de empresas, relatórios de instituições multilaterais, informações de governos locais e informações da própria imprensa.

“Há uma série de dificuldades para se conseguir esses dados por país, já que o Ministério do Comércio chinês considera Hong Kong destino final quando, na maioria das vezes, é apenas uma ponte para os recursos. Por essa metodologia oficial, Hong Kong aparece como destino de 65% dos investimentos chineses, o que distorce qualquer conclusão sobre destino final”, disse Scissors. “A cada seis meses, revisamos todos os dados para expurgar investimentos que não se concretizaram”, acrescentou.

Os investimentos chineses no exterior vêm aumentando nos últimos anos. De 2006 até 2010, passaram de US$ 21,2 bilhões para US$ 59 bilhões, segundo o Ministério do Comércio (Mofcom).

Nesse período de cinco anos, a Austrália recebeu o maior volume, cerca de US$ 34 bilhões, segundo a contagem da Heritage Foundation. Os Estados Unidos foram o segundo destino, com US$ 28,1 bilhões.

Nigéria, Irã e Brasil aparecem em terceiro, com praticamente o mesmo volume acumulado, cerca de US$ 15 bilhões. Cazaquistão, Canadá, Indonésia, Argélia e Venezuela, são os próximos da lista.

A China tem hoje um total de US$ 215 bilhões investidos no exterior, segundo a contagem da entidade conservadora americana.

Deste total, US$ 102,2 bilhões foram investidos em energia e US$ 60,8 bilhões em mineração.

“A reação americana à expansão do investimento chinês tem sido se desesperar, e a corrida para a América do Sul vai gerar ainda mais tensão. Os Estados Unidos, no entanto, têm como se beneficiar do investimento chinês e neutralizar qualquer tipo de impacto negativo na política externa”, escreve o autor no relatório.

Segundo o pesquisador, os Estados Unidos não têm como determinar que empresas americanas invistam em determinados países, como pode fazer o governo chinês, mas podem criar um ambiente mais favorável aos investimentos por meio, por exemplo, de acordos de livre comércio com países da região.

 

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Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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