Bogotá, um encontro com o otimismo

Visitar Bogotá na Colômbia, representa um encontro com uma cidade que transpira otimismo. Apontada nos anos 90 como símbolo de caos urbano e violência, Bogotá passa, ao longo da última década, por um vertiginoso processo de transformação. A cidade ainda possui uma série de problemas, mas o que se observa nas ruas é uma determinação dos bogotanos em mudar o quadro.

Uma nova política de segurança começa, ainda nos anos 90, a alterar cenário de guerra urbana que Bogotá vivenciava. Primeiro houve um incremento substancial no orçamento  da polícia que  passou de 12 milhões de pesos em 1994/ 95 para 121 milhões em 2001/03.  Uma nova polícia foi criada, através de treinamento, melhorias nos equipamentos, na infraestrutura, nos serviços de inteligência e na aproximação com a população. Foram criados líderes comunitários que trabalhavam em conjunto com os CAIs (Centros de Atención Inmediata),  o que levou a ação policial para toda a cidade.  Entre 1994 e 2003 o número de assassinatos caiu de 70 para 24 em cada 100.000 habitantes. É importante lembrar que Bogotá se beneficia da própria transformação vivida pela Colômbia, onde se observa uma queda nos níveis de violência acompanhada por um robusto crescimento econômico.

Obra do Transmilenio na Calle 26

Mas isto só não basta para se entender a metrópole que surge no início desta década. A transformação de Bogotá também está calcada em um Urbanismo de alta qualidade. Desde o final do milênio passado são realizadas reformas por toda a cidade. O primeiro feito da cidade foi a transformação das calçadas e sua qualificação. Não havia uma distinção clara entre o sistema viário e o espaço dos pedestres. Muitas calçadas se transformavam  em estacionamento. Ao mesmo tempo o sistema de transporte público era totalmente caótico. Não existia coordenação ou controle sobre as linhas de ônibus da cidade. A partir de 1998, com a criação do sistema Transmilênio, baseado no sistema de transporte de Curitiba, a cidade começa a alterar esta situação. Hoje Bogotá possui 114 estações espalhadas ao longo de 663 km de vias exclusivas, que transportam mais de 3 milhões de passageiros. Segundo a imprensa local o ritmo de expansão do sistema está muito abaixo do necessário, porém estão previstas inaugurações de novas linhas ainda este ano.

Uma destas linhas, a calle 26, possui 14 km de extensão e ligará o aeroporto El Dorado, cuja ampliação estará pronta em um ano e meio, com o centro financeiro de Bogotá. A calle 26 é uma das principais vias da cidade e está temporariamente fechada por conta das obras do Transmilenio. Toda a infraestrutura e a pavimentação, feita em concreto, o que exige muito menos manutenção do que o asfalto, serão reconstruídas. Aqui um belo exemplo de como a cidade encara os seus desafios. O impacto desta obras sobre o trânsito da cidade é dramático. Mas o bogotano encara esta e as outras quase 100 obras em andamento, como um processo necessário para o desenvolvimento da cidade. “Volte daqui dois anos para ver como vai ficar bonito”, é em síntese, o que pensa o morador da cidade.

Do Arq. Rogelio Salmona, a Virgilio Barco é uma das 21 bibliotecas da BiblioRed

Paralelamente a cidade amplia a oferta de equipamentos públicos por toda a periferia. Bogotá possui um sistema de bibliotecas públicas que é referência mundial, a BibloRed que atende a 5 milhões de usuários por ano. Além de seu papel na criação do hábito da leitura, as bibliotecas bogotanas são elementos arquitetônicos de altíssima qualidade que acabam por requalificar seu entorno imediato. Atualmente a rede conta com 21 bibliotecas ditribuídas por toda a cidade.

Existe também um forte investimento em educação e uma série de escolas estão em construção pela cidade, em especial nas áreas mais carentes da cidade. Diversas áreas verdes foram construídas nos últimos anos como por exemplo o Parque Tercer Milenio, cuja área era dominada por uma ocupação urbana precária. Mesmo com o fato de que os antigos moradores do local só tiveram sua situação regularizada dois anos após a inauguração do parque, este trouxe forte melhoria para seus vizinhos que viram a violência diminuir e seus imóveis se valorizarem.

Vista do Parque Tercer Milenio

Por tudo isto, visitar Bogotá é se encontrar com uma cidade que possui discernimento sobre o que deve fazer para resolver seus gravíssimos problemas. Uma cidade que olha de verdade para frente e que sabe que pode transformarse naquilo que deseja.  A beleza de Bogotá está na certeza que sua populção revela em relação ao seu futuro.

Só nos resta retornar dentro de dois anos. Até lá.

Sobre Marcos O. Costa

Arquiteto Urbanista formado pela FAU Mackenzie com mestrado em estruturas ambientais urbanas pela FAUUSP. Associado à Borelli & Merigo, onde desenvolve projetos nas áreas de edificações e urbanismo. É professor da FAAP e da Escola São Paulo. A publicidade exposta neste Blog é de responsabilidade da Wordpress
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2 respostas para Bogotá, um encontro com o otimismo

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